terça-feira, 1 de março de 2011

O Sítio

Viviam do que a terra lhes concedia em troca do seu trabalho e respeito. Possuíam um pequeno sítio no Ubá, que produzia cana, café em coco, algodão em pluma, milho, feijão, mandioca e abóboras; tinham sempre ovos de uma galinhada criada solta, porcos, vacas leiteiras e seis parelhas de bois de tração bem rústicos e pesados que eram usados para transportar fosse o que fosse de carro e também para mover o engenho que moia a cana. Os bois trabalhavam presos pelas cangas, grandes peças de madeira em forma de ferradura que se fixavam como colarinhos nos pescoços dos animais e eram guarnecidas com almofadas de capim ou paina, forradas com sacos de estopa ou outro tecido grosseiro para não cortar a pele dos animais com a constante fricção. Eram unidas por uma trave na qual se fixava o varal principal do carro ou as correntes que faziam mover o engenho vertical. As juntas eram sempre conduzidas por um pioneiro, boi mais velho ou mais pesado, líder natural que ia conduzindo os bichos e direcionando seu destino, puxando o carro ou andando em círculos para movimentar a moenda de cana.


A cana cortada na roça ia arrumada sobre os carros em enormes feixes e assim puxada até o engenho. Era então descarregada, empilhada estrategicamente na entrada do barracão e os bois desatrelados eram deixados descansando, ruminando ou bebendo água por alguns minutos até, pouco depois, serem colocados para mover a máquina de madeira, composta por três toras roliças paralelas encostadas na vertical. A tora do meio era mais grossa e longa que as outras e tinha um eixo que ia encaixado numa perfuração da pesada trava horizontal que a ancorava acima. Logo abaixo dessa trava, fixada no tronco maior, projetava-se uma alavanca da qual pendiam correntes que seriam atreladas às cangas dos bois, a força de tração que movimentava todo o conjunto, idealizado e construído por Candido antes de Candinho nascer. Entre as três toras, firmemente travadas acima por outra peça de madeira que ficava logo abaixo da alavanca, e afixadas no chão numa pesada base (que talvez fosse) de concreto, funcionavam engrenagens de madeira que faziam o engenho trabalhar. A cana era esmagada entre a tora central e as laterais, e a garapa extraída escorria por uma canaleta de madeira até um depósito que ficava embaixo desse conjunto, em cima da base. Era um cocho fixo (Cochos são caixas de madeira, às vezes feitas com tábuas encaixadas e cheias de água até encharcar e inchar vedando os encaixes, às vezes feitos com troncos cortados pela metade e escavados, estes utilizados principalmente na alimentação dos animais) com uma bica que derramava a garapa em baldes ou cochos menores que podiam ser transportados até o galpão anexo, onde esse caldo era derramado nos enormes tachos de cobre ajeitados sobre fogões de pedra em que ardiam grandes fogueiras alimentadas à base de muita lenha seca. A miúda e ativa Etelvina cuidava de tudo ali, desde que a cana chegava ao engenho até que, no barracão quente como uma fornalha, depois de horas e horas fervendo e apurando o caldo, mexendo sempre, sem parar, até formar o melado, o melado engrossar e chegar ao ponto de rapadura. Aquela pasta doce e fervente era despejada então num tablado de madeira com moldes quadrados e alisada com uma longa espátula ou pá até preencher cada um dos espaços. Horas depois, quando aquilo já estava frio, era raspado por cima para tirar o excesso e os tijolos, depois de desenformados e embrulhados na palha de milho estavam prontos para a comercialização.

Rapadura era o principal produto do sítio, o que dava condições de sobrevivência à família, e os bois eram a força bruta que fazia as coisas funcionarem por ali. Candido e o Véio Dito administravam canavial, pastagem e bois, mas era Daniel o responsável pelo bem estar dos animais: os bichos ficavam soltos no pasto até a hora da lida, quando então eram reunidos e atrelados aos carros que iam buscar a cana, desatrelados na volta da roça, depois presos ao engenho para movimentarem a moenda. Cumpridas as tarefas, eram levados de volta até o pasto para descansarem até o dia seguinte, quando então começaria tudo de novo.

De tempos em tempos, Candido levava as rapaduras para Jacarezinho e, menos vezes, para Santo Antonio da Platina, para serem comercializadas. Iam, em cada pacote, dois tijolos de até 1 kg de peso cada, embrulhados juntos na palha de milho, empilhados no carro de boi com outras mercadorias, sacolejando até o destino final. Jacarezinho era a maior cidade e centro regional daquelas redondezas, e o carro também servia para transportar a família ou parte dela para irem até lá (ou até Santo Antonio da Platina) passear, visitar um amigo ou parente, se consultar com o médico, Dr. Gustavo Lessa, pegar remédios na farmácia do Otacílio Fortes, comprar mantimentos.
Este é um período quase lendário da vida do protagonista desta história. Candinho tem lembranças muito vívidas da infância e juventude, de boa parte das coisas mais importantes que terminaram por constituir seu caráter e personalidade. É também, do ponto de vista do organizador destas memórias, o material mais rico e que mais puxa pela imaginação, por serem eventos acontecidos quase um século atrás numa região rude e selvagem que, hoje, é o norte do Paraná, uma imensa área maior que alguns países, onde a terra foi dividida e cultivada, pontilharam cidades, quase que se acabaram as matas e dificilmente seria reconhecida por um cidadão daquela época hoje, mais de 80 anos depois.

A Família

Hoje, mais de nove décadas depois do nascimento de Candinho, é quase impossível saber exatamente quando foi que a família chegou à região. Não restaram documentos escritos, há muito poucas fotos e Candinho, o único sobrevivente do grupo original, nasceu no Paraná e não sabe ou não tem certeza sobre muitas coisas de antes de seu nascimento. A página da prefeitura de Santo Antonio da Platina na internet registra, na pesquisa do historiador Israel Pereira de Castro, entre as famílias pioneiras chegadas no ano de 1898, uma de sobrenome Coelho (Souza Coelho ou Coelho de Souza), o que combina com a época, o local e o apelido de Candido Coelho pelo qual nosso Candido Bonifácio de Souza era conhecido por todos. Parece que teriam chegado, na mesma leva ou em períodos próximos, vários ramos da família: pais e filhos mais velhos já com suas próprias famílias, irmãos, tios e primos – às vezes netos, mas nada disto é uma certeza absoluta. De todo modo a história da família se insere numa época em que a cultura do café estava se expandindo desde o interior de São Paulo e entrando pelas terras roxas e férteis do Norte do Paraná, e a ferrovia – que até então chegava a Ourinhos, logo do outro lado da fronteira, no estado de São Paulo – ia logo chegar ali na região de Santo Antonio da Platina, lançando um ramal na direção dos Campos Gerais, no centro do estado, onde se encontraria com a estrada que subia desde os pampas gaúchos, e outro ramal para oeste, por onde embrenharia pelos sertões do Norte do Paraná civilizando a região e disseminando cidades ao longo da linha no decorrer das décadas que viriam. Candinho nasceu poucos anos antes disso começar, pouco antes da Cia. de Terras Norte do Paraná, da São Paulo – Paraná Railway, da Paraná Plantations, do projeto inglês de colonização... Ou quase que ao mesmo tempo em que isso tudo. Ele é pouca coisa mais velho que o Norte Novo do Paraná.

A família era composta por, além dos pais Candido e Etelvina, cinco irmãos: pela ordem de idade, a mais velha era Aurora, depois vinham Daniel, Valdemar, Edward (chamado Edevarde, apelidado Ides) e, finalmente, Candinho, o caçula. Dessa filharada, dois já tinham ido antes de 1918 – Heitor e José – e, um ano e pouco, dois anos depois de Candinho, ainda nasceria Eurodites, que não sobreviveria mais que uns poucos dias.

Vivia agregado a eles um ex-escravo, liberto pela lei Áurea, um bom Preto-Velho, sábio e solene: o véio Dito. Dele não se sabia com certeza a idade. Só que já era adulto em 1888, quando terminou a escravidão. Candido lembrava-se dele sempre com a mesma cara, desde que era bem novinho. Quer dizer que então, em 1918, ele já teria pelo menos sessenta anos, mas, supõe Candinho, devia ter mais de oitenta, talvez uns noventa, ou mesmo por volta dos cem, mas nisso não dá para confiar, porque Candinho era muito, muito novo mesmo, e ele se lembra da imagem do Véio de uma forma muito vaga, sabendo mais dele pelo que a família comentava, anos depois de sua morte, enquanto ele crescia, do que por uma lembrança direta. O Véio Dito era aquele tipo de ser que sempre esteve lá, como a voz do pai ou o calor da mãe, a maior parte do tempo quase invisível e silencioso como uma sombra, mas que também sabia impor sua presença como poucos conseguem. Ao que se sabe, era descendente de uma longa linhagem de escravos. Seus pais, seus avós e os pais deles antes, sempre tinham sido propriedade da família de José Coelho e dona Inácia, e dos pais dele, e dos avós... Com o advento da Lei Áurea e a abolição, familiarizados como já estavam uns com os outros e interdependentes como eram naquela dura luta pela sobrevivência, permaneceu tudo como dantes. Dito vira o nascimento do jovem patriarca Candido no final da década de 1870 ou nos primeiros anos da de 1880, testemunhou e acompanhou-o enquanto ele crescia, constituía família e gerava seus próprios filhos com Sinhá Etelvina.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Candinho, uma saga

Grandes Ciclos I
Ubá e Sto. Antonio da Platina
Os pássaros já estavam acordando e principiavam a alegre algazarra naquela madrugada fria de sete de maio, quando Etelvina Batista de Souza, cabocla rija de pouco menos que trinta anos e forte sangue mineiro, desfez a careta, mas continuou bufando, suada e vermelha, e, com a ajuda de Rita, a irmã mais nova, e sob a orientação atenta da vó Inácia, terminou de parir o último de seus filhos que, passadas mais de nove décadas, ainda estaria vivo e lúcido para contar sua história. O rebento era um varão brigador e de saco roxo, fruto de seu ventre com a semente de Candido Bonifácio de Souza, homem de trinta e poucos, braços e caráter fortes, irmão de Zé Coelhinho e filho de José Coelho Villas Boas de Souza e Inácia de Souza, chamado de Candido Coelho por conta do sobrenome familiar que não usava. Os dois eram oriundos do interior das Minas Gerais, Região de Ubá, e moravam então no bairro rural também chamado de Ubá, colônia de mineiros no norte do Paraná, município de Santo Antonio da Platina, próximo à fronteira com o estado de São Paulo. Candido ainda ficava nervoso com o nascimento de seus filhos, se bem que já nem tanto mais: era a oitava vez que isso acontecia, e a dois deles Deus tinha chamado para Si ainda anjinhos. A este filho que então nascia ele daria o seu próprio nome, quase como se fosse a expressão de um desejo inconsciente de perpetuar-se, como que adivinhando que aquele pequeno recém nascido o levaria por tanto tempo, através de épocas e mundos que lhe pareceriam inacreditáveis ainda que vivesse neles... Após o parto, mãe e criança limpas e descansando, ele se viu sozinho durante um longo instante do lado de fora, amanhecendo ainda. O sol, primeiro luz vermelha parece que sangrando o horizonte, depois claro e absoluto, luz dourada atravessando umas nuvenzinhas delicadas e matizando o céu de tons de azul, lilás, rosa, dourado – e então o dia de todas as cores, com a predominância do verde... Candido respirou fundo e olhou para os campos que despertavam, a linha da mata mais adiante, ouviu os ruídos do dia que começava, a passarada, a balbúrdia de seus filhos ali por perto e sorriu: Sentiu que a vida, apesar dos muitos pesares, de vez em quando ainda surpreendia com uns momentos que não tinha nada o que explicar nem reparo nenhum a fazer... Corria o ano da graça de 1918. Na Europa, a primeira guerra mundial comia solta, mais próxima de seu final do que então se poderia imaginar. Nesse dia nascia Candinho.

E vinha chegando, lá das bandas da sua casa, o concunhado Francisco Arantes, marido de Rita, conhecido por ali pelo apelido de Chico Terto, todo alegre, balançando os braços e falando alto:
- Bom dia, compadre Coelho! – E meus parabéns! Que Nossa Senhora da Imaculada Conceição tenha dado uma boa hora para Dona Etelvina. Venha daí um abraço.
- Obrigado compadre – disse Candido enquanto o contraparente aplicava-lhe os tradicionais três tapinhas nas costas -. Comadre Rita foi de grande valia.
- Vamos entrar ali na sua casa – disse Chico Terto mostrando-lhe uma cesta -. Tenho aqui umas coisas para a mãe e para a criança e uma coisa para nós.
Rita estava na cozinha fervendo lençóis e fronhas; Aurora, a filha mais velha sobrevivente, nascida em 1908, escolhia feijão na mesa enquanto o pequeno Edward, caçula destronado, brincava ali por perto no chão de madeira. Daniel e Valdemar, respectivamente com oito e seis anos já estavam em algum lugar quase longe, mas nem tanto, explorando o mundo entre as ruas de café e as roças de milho. Vó Inácia, mãe de Candido, estava no quarto com a nora e o neto. Terto colocou a cesta na mesa e tirou dela panos dobrados e embrulhos, um embornal com ervas, um saco de algodão com um grande pão fresco ainda cheirando muito bem, uma lata de biscoitos sortidos, e, por último, um garrafão de cinco litros, faltando aproximadamente dois terços, de vinho tinto.
- Vamos tomar um copo em comemoração, compadre. Venha você também, Rita, e traga os copos.
- Beber a essa hora da manhã, Chico? Logo eu, que quase nunca bebo em hora nenhuma.
Rita já chegava, sorridente, com os copos. Terto insistiu:
- Vamos, compadre Coelho! Afina o sangue e deixa a cabeça mais leve – Além do que é benção na certa brindar à saúde do recém nascido.
     Rita já tinha enchido os copos e os distribuiu. Candido pegou no seu, aproximou-o do nariz e sentiu o odor forte e gostoso. Ergueram os copos e Terto brindou:
- Ao menino, para que seja trabalhador e honesto.
- Ao meu filho Candinho, para que tenha uma cabeça boa e dê boa semente.
- Ao pequeno, para que tenha uma vida longa e valiosa – concluiu Rita.
Bateram os copos e beberam à saúde de Candinho.

Reintroduzindo...

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Quando os buques de guerra dos navegadores nórdicos, ornados com carrancas de dragão ou serpente marinha, velas quadradas, as fileiras de remos e os escudos redondos protegendo as amuradas, apareciam no horizonte de volta de suas campanhas, a comunidade se mobilizava para preparar o banquete. O Hall era limpo, a grande mesa circular montada, a lareira acesa com boa lenha, o rei vinha vestido com seus melhores trajes e ataviado com todos os emblemas de sua posição, tomava lugar entre as colunas que o distinguiam e dava a ordem para que a festa acontecesse. Eram oferecidos sacrifícios a Thor ou a Odin. Músicos atacavam seus instrumentos, a comida era servida, os homens comiam, bebiam, cantavam e faziam muito barulho. Não sei se havia uma ordem para essas coisas, ou se em todas essas festas todas elas aconteciam, mas havia um momento solene, quando era exigido silêncio e atenção aos comensais, e este era quando o bardo que sempre acompanhava as expedições ia narrar a saga.

Esses eram povos que viviam muito ao norte, num clima inóspito e numa terra de poucos animais e escassos recursos. Essas culturas desenvolveram-se, principalmente, sobre a guerra e a pilhagem. Suas frágeis embarcações atingiram o Mediterrâneo e o norte da África; passaram além da Groenlândia e aportaram onde hoje é a América do Norte, e quem sabe onde mais eles chegaram. A saga era a narrativa heroica, idealizada, desses acontecimentos: os meses no mar, a sangueira da guerra, a crueldade da conquista, a morte por hipotermia, desinteria, tétano, no fio de um machado, na ponta de uma lança, levado pela tempestade; a miséria física e o risco daquela frágil estrutura de madeira ser despedaçada pelos elementos da natureza, tudo transmutado em signos de glória e exaltação. A saga aproximava os homens dos deuses. A ação humana adquiria um significado no teatro cósmico, onde as forças da ordem e do caos (fogo contra gelo) combatiam umas com as outras, e os guerreiros que morriam honrosamente nas batalhas passavam os dias em guerras recreativas e as noites em festins com os deuses e as Valquírias no grande Hall de Asgard. Todos aguardando o advento do final do universo conhecido, quando então se daria a última de todas as batalhas, o Crepúsculo dos Deuses, o Ragnarok...

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Saga. A narrativa heroica de uma jornada, uma campanha ou expedição. Aqui, no nosso caso, de uma vida humana que já dura mais de noventa anos. Candinho nunca foi um guerreiro aos moldes daqueles grandalhões ruivos do norte. Ele sempre foi um sujeito miúdo, cabeça grande, quase frágil (agora, aos noventa e dois, quase transparente...), magrelo na juventude, gorducho entre os quarenta e os sessenta e poucos, magrelo de novo agora velhinho, e sempre de cabeça grande, em muitos sentidos. É uma saga diferente daquelas dos navegadores e guerreiros do norte gelado, acontecida numa terra quente e fértil, ao sul, próxima ao Trópico de Capricórnio, em meio a florestas exuberantes que estavam se acabando pela ação humana e cidades que estavam nascendo das terras férteis, adubadas com muito suor e promessas de progresso.

Norte do Paraná, décadas de 1920 e 30. Do nascimento, em 1918, até a morte de Valdemar, em 1937, o primeiro grande ciclo da vida de nosso heroi/sobrevivente. Candinho nunca participou de guerras, nunca matou ninguém, nunca navegou muito longe, não descobriu terras, não foi rei nem general. Nada de extraordinário, mas tudo de extraordinário. A narrativa heroica da vida de um homem como qualquer outro e não tão longe assim no espaço ou no tempo.

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Quem já esteve passeando por este blog e leu as postagens mais antigas, sabe que um dos principais objetivos desta mídia aqui é funcionar como o laboratório onde será feita a montagem de um material acadêmico para apresentação de Trabalho de Conclusão de Curso em História pela Universidade Estadual de Londrina. Mas o objetivo principal é mesmo prestar honras a um bravo camarada que conheço desde que me entendo por gente e que ainda se encontra por aí neste mundo. O trabalho acadêmico continua, em postagens/capítulos “marginais”, anotações “de pé de página” sobre história e memória, cognição, cultura e representações, os grandes ciclos da história recente do Brasil, do Mundo e do estado do Paraná, principalmente a região denominada de Norte Pioneiro no primeiro grande ciclo da saga, e o Norte Novo depois. Entre Santo Antonio da Platina e Londrina, passando pelo Lageado, depois Cornélio Procópio, Curitiba, Vale da Ribeira e Congonhinhas.

Vamos começar, a partir da próxima postagem, a publicar a Saga de Candinho, em ordem e cronologia.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

22 de Maio de 1937

Candinho: Na época em que morávamos no Lageado o papai era subdelegado nomeado pelo delegado regional de Jacarezinho que era a comarca à qual pertencia o município de Santo Antonio da Platina, e pertencendo ao município de Santo Antonio da Platina o patrimônio e distrito judiciário do Lageado, criado pelo governo de Getúlio Vargas em 1929, que era onde nós morávamos. Era delegado regional, se não me falha a memória, Dr. Alcântara, em Jacarezinho, que era quem supervisionava a delegacia de Santo Antonio da Platina e a subdelegacia do Lageado. Tinha chegado recentemente, oriundo do estado de São Paulo, e sido nomeado delegado de Santo Antonio da Platina, o Osório Silva, que se casou com nossa prima Benedita, sobrinha de meu pai. Como meu pai era altivo e não gostava de receber ordens e o Osório Silva era um tipo mandão, prepotente e autoritário, inclusive com os policiais que o acompanhavam nas diligencias...
... A subdelegacia do Lageado era vinculada à delegacia regional de Jacarezinho, que era a comarca. Quando havia problemas a serem resolvidos referentes à subdelegacia do Lageado, meu pai não procurava o Osório e sim o delegado regional em Jacarezinho, com quem trocava informações sobre os problemas oriundos da...
... Em alguns casos o delegado regional dizia ao meu pai: “é, você pode tratar desse assunto com o delegado de Santo Antonio da Platina”, e meu pai não queria, dado a indisposição já existente entre eles, dar satisfação ao Osório Silva, mesmo ele sendo casado com a nossa prima. O Osório Silva ficou magoado, começou a fazer pressão política e pessoal, e não fazia questão de disfarçar que tinha mesmo uma diferença com o subdelegado, meu pai. Em pouco tempo, dada a divergência, meu pai pediu demissão e deixou o cargo... Não, ele não chegava a ameaçar, mas o que acontece é que com toda a pressão e indisposição... O Osório pressionou bastante o delegado regional de Jacarezinho para que substituísse papai na subdelegacia do Lageado...
... Foi nomeado o Jango como substituto do meu pai, indicado pelo Osório Silva. Em decorrência dessa nomeação é que ele passou a... – não perseguir diretamente meu pai e meus irmãos –... Mas demonstrava mau-humor e má vontade... Até que, na noite de 22 de maio de 1937...


22 DE MAIO DE 1937

Ouviam o noticiário. O rádio estava ligado na Inconfidência, de Minas Gerais. Passavam talvez vinte e poucos minutos das nove da noite de vinte e dois de maio de 1937, e Candinho tinha completado dezenove anos quinze dias antes. Dali a pouco iriam pegar o carreiro de uns seis quilômetros de volta pra casa, no sítio da família, só terminar de ouvir o que estavam falando na rádio... O bar já tinha sido de Cândido, então era tudo familiar: um espaço quadrado de uns dez metros, onde tinha uma sorveteira e algumas prateleiras no fundo. Candinho estava prestando toda sua atenção ao noticiário, mas a partir daqui ele não se lembra mais do que é mesmo que ouviam. Havia pessoas dentro do bar, mas Candinho não se lembra do que aconteceu com os outros. O objetivo era os irmãos, filhos do ex-subdelegado. Pode ser que Candinho estivesse mais perto do fim do balcão, mas a certeza é de que havia um desses baleiros de vidro giratórios bem ao lado de onde estava encostado. Ele não estava distraído, mas, mesmo assim, o movimento o pegou de surpresa. Reconheceu Jango e Elias Carvalho que lideravam os bandidos. Os jagunços pararam, meio passo para dentro, em todas as portas do bar, Jango declarou em alto e bom som que estava ali para desarmar quem quer que estivesse armado e, ato contínuo, começaram a atirar. Os irmãos Daniel e Valdemar estavam ali ao lado, e ele percebeu que Daniel soltava um gemido e levava as duas mãos à barriga enquanto sua cara se contorcia num esgar. Viu que Valdemar saía correndo pela porta da esquerda, e supôs que ele estivesse com o revólver Smith & Wesson calibre 32 que Cândido havia deixado com os irmãos para que se protegessem. Viu que os jagunços penetravam no bar e num instante, como um serelepe, não sabe bem como, estava já do outro lado do balcão enquanto o baleiro estourava com o tiro e as balas doces choviam sobre sua cabeça e pelo chão, misturadas com cacos de vidro. Ficou ali abaixado respirando forte e não viu mais o que aconteceu até que os estampidos cessaram. Candinho só ouvia sua própria respiração ofegante e os gemidos de dor de Daniel que se contorcia no chão, sangrando, baleado no abdome. Arriscou uma olhada para o lado de fora do balcão e não viu nada. Ouviu uns latidos distantes e sentiu a barriga gelada e a nuca dura. Sua cabeça estava clara como se tivesse acendido uma luz dentro dela. Saiu de seu esconderijo e viu Daniel, ferido e sangrando, que se erguia com dificuldade. Foi indo para a porta da esquerda, por onde Valdemar tinha saído, um pé depois do outro, e, de repente, estava na noite, do lado de fora. Viu o corpo do irmão, abatido a seis ou sete passos da porta, caído no chão de costas; abaixou-se e puxou-o pelo braço, pensou que estava dormindo ou desmaiado, chamou-o pelo nome e fez que tentou levantá-lo quando viu, num golpe de vista, dois dos pistoleiros encostados a uma cerca do outro lado da rua. Os pistoleiros também o viram e apontaram suas armas. Então Candinho correu como nunca antes em sua vida, alucinado e desorientado, sem saber para onde ir. Os tiros passavam perto dele e explodiam na poeira à sua frente...
... A Cesarina, irmã do Vicente Lino, que era o padrinho de crisma de Candinho, e dono de uma pensão que ficava alguns metros rua abaixo, estava indo para a cama quando escutou os tiros e a gritaria. Foi até a porta da rua, entreabriu-a e olhou para fora, à espera de que alguma coisa acontecesse. Após mais alguns intermináveis segundos de silêncio, ela escutou mais gritos e tiros, e viu que Candinho descia a rua, correndo feito louco... Candinho viu que a porta da pensão do padrinho estava entreaberta e ouviu chamarem o seu nome lá de dentro. Entrou correndo, encolheu-se num canto e ficou ali até ter certeza de que tinha passado. Foi uma longa noite em claro.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

O lugar


A estrada que vinha desde Santo Antonio da Platina terminava na rua principal do Lageado, onde havia aí umas 50 casas de chão batido que ficavam dos dois lados dessa rua e, entre as casas, a espaços irregulares, abriam-se pequenas transversais que iam dar em picadas no meio do mato ou nas roças onde o povo dali trabalhava. Mais além, quase à beira do ribeirão, erguia-se a igrejinha de ripas de palmito coberta com tabuinhas, bem perto de uma mina de águas muito límpidas e cristalinas que abastecia a maior parte da população do lugarejo. Não era sempre que aparecia um padre para rezar a missa aos domingos – só uma vez ou outra, quando vinha um de Santo Antonio da Platina, quase sempre em ocasiões festivas. Então os católicos dali, tementes a Deus e cuidadosos de suas almas, reuniam-se na capelinha durante a semana para rezar o terço. E ainda em todas as ocasiões que a comunidade tinha que se reunir para decidir qualquer coisa, era lá que acontecia. Mas não demorou muito para o lugar ser elevado a paróquia e chegar um padre morador para colocar as coisas nos eixos.

Depois do Inverno...


Agora, já que acabou o Inverno, voltemos ao que viemos de fato fazer aqui. As primeira ações da Primavera serão a postagem de um trecho que conta a mudança da família de Santo Antônio da Platina para o Patrimônio do Lageado, alguns episódios acontecidos no patrimônio durante os dez anos que a família ficou por lá e o tema principal do TCC, que se refere à morte de Valdemar. Parte deste material já foi publicado em outras postagens, mas é aqui que começamos a localizar os eventos que resultaram na morte de Valdemar. Um pouco de narrativa agora e daqui a pouco voltamos ao trabalho acadêmico...

Mudança para o Lageado

Santo Antonio da Platina era praticamente uma comunidade rural. Todos dependiam, direta ou indiretamente, do trabalho no campo. Produzia-se milho e algodão, feijão e café, criavam-se porcos e galinhas. Cândido, após ter ele próprio trabalhado na roça, ganhando seu sustento e o da sua família como agricultor; tocado a serraria e depois uma carpintaria, estava agora com um pequeno comércio, um armazém de secos e molhados que fornecia mantimentos, ferramentas, tecidos e miudezas, negociando, como se fazia naquela época, na honradez do fio de bigode e nos valores anotados em caderneta, pagos sem juros em 30, 60 ou 90 dias, ou quando os produtos da terra eram comercializados.
Aquele ano de 1928 foi especialmente difícil. No ano anterior uma série de condições desfavoráveis havia comprometido os resultados do trabalho do campo e todos estavam sem dinheiro para acertar suas contas: os porcos foram acometidos de peste e centenas deles tiveram que ser sacrificados; choveu torrencialmente no último período de colheita de algodão e quase toda a safra se perdeu; as espigas de milho não granaram direito e deram uns grãozinhos minúsculos e duros como pedra que até as galinhas rejeitavam, ou então mofaram e apodreceram fechadas nas palhas. E, como se não fosse suficiente, bastaram alguns dias de sol depois da chuvarada e a cidade foi invadida por milhões de mosquitos, que saiam a devorar as pessoas todos os fins de tarde. A cidade amanheceu com malária. Dezenas de homens fortes não puderam se levantar de suas camas e ali ficaram dias, batendo os dentes com a febre terçã (Candinho sabe, mais ou menos, de cinco ou seis mortes pela febre entre bebês e pessoas muito velhas e já doentes). O trabalho nos campos quase parou. A sobrevivência começou a ficar muito difícil naquela situação e o fantasma da fome começou a assombrar aquela gente. Parecia praga bíblica.
A venda de Cândido chegou à beira da falência e alguma coisa precisava ser feita a respeito. Não muito longe dali estava sendo implantado o patrimônio do Lageado, que depois seria Carvalhópolis e, depois ainda, município de Abatiá. O chefe da família tinha ouvido falar bem do lugar. Dizia-se que, ali, a doença dos porcos não havia chegado e os produtos da terra tinham dado bem naquela safra. Várias pessoas e famílias mineiras da região de Ubá que eram suas conhecidas estavam indo para lá. Viajou até o patrimônio e fechou negócio numa grande casa de madeira que tinha um salão de frente onde daria para acomodar muito bem o negócio de secos e molhados, e alguns aposentos de fundos onde poderia instalar toda a família. Ficou decidido que eles mudariam para o Lageado.

Foram necessários vários dias, três carros de bois e cinco carretas de burros para acomodar tudo, a mudança da família e o estoque do armazém. Foi construído um pequeno engradado de madeira para acomodar a gatinha vira-lata que dormia na despensa e servia de mascote para as crianças e, numa manhã mal começada, logo aos primeiros raios de sol, Cândido vistoriou os volumes, ajeitou uma coisa aqui, outra ali, conferiu as amarras das cargas e se o pessoal estava bem instalado, tomou assento ao lado do condutor do primeiro carro e deu a ordem de partida.
Era uma viagem de pouco mais ou menos que 30 quilômetros até a margem do ribeirão Lageado. Fariam uma rápida passagem no bairro de Santa Joana, onde pegariam mais um volume na casa de parentes, a meio caminho do rio das Cinzas, primeira etapa da viagem. A comunidade do Lageado ficava do outro lado do rio que tinha que ser transposto através de uma balsa movida a tração humana num trecho de uns 80 a 100 metros de largura. Chegaram à margem no meio da tarde do primeiro dia, e então começou a complexa operação de travessia: de um em um ou dois em dois, de acordo com suas cargas e para manter o equilíbrio na embarcação tosca, eram embarcados os carros ou carretas com seus respectivos carreiros e um ou dois membros da família, mais os balseiros de braços fortes que puxavam os cabos de aço esticados como varais entre uma e a outra margem do rio e que corriam por roldanas.
Quando chegaram, tudo e todos, enfim, do outro lado, já era noite. Restava fazer alguma coisa ligeira para comer e bivaquear até a madrugada seguinte, para saírem antes do sol nascer.
Foram dois dias de jornada dessa caravana desde Santo Antônio até o Lageado, e eles chegaram no entardecer do segundo dia de viagem. Nem bem pararam os carros, Cândido abriu as portas de seu novo armazém e casa, improvisou um balcão com caixotes e expôs a mercadoria que tinha trazido: tecidos e sal; pó de café e ferragens; calçados e querosene; farinha e agulhas; charque e açúcar; feijão e toucinho; macarrão e lamparinas. A gata foi libertada de seu engradadinho de madeira, estudou um pouco as redondezas e não encontrou sua casa por ali, então sumiu pelo mundo. Passaram a maior parte da noite ajeitando as coisas, ocupando os espaços vazios, limpando, entrando na função madrugada adentro. Certa hora Candinho não viu mais nada porque desabou e foi colocado para dormir numa das camas que Etelvina e Aurora já tinham preparado. Acordou dia claro, com o armazém já em pleno funcionamento. Candinho e Ides saíram para explorar o lugar; foram até a beira do ribeirão, a igrejinha de palmito, encontraram outros garotos, conversaram, se conheceram e perguntaram pela gata. Ninguém a tinha visto.
O patrão abriu cedo seu comércio naquele dia de inauguração, os negócios correram muito bem e ele ficou entusiasmado. Já no primeiro dia Candinho fez alguns pequenos trabalhos no armazém, levando e trazendo uma coisa ou outra de lá para cá e daqui para lá, mas só assumiu a responsabilidade por tarefas mesmo lá pelo terceiro ou quarto dia, quando as condições e caminhos do local passaram a ser melhor conhecidos.
Lá pela metade da segunda semana após a chegada ao Lageado, Candinho e Daniel, o mais novo e o mais velho dos filhos homens, foram a cavalo até Santo Antônio da Platina para encerrar uma coisa ou outra. Foram primeiro direto para a casa de uma tia, onde encontraram a gatinha (ou a gatinha os encontrou), que havia chegado ali de volta mais ou menos uma semana depois da mudança, miando de dar dó, desesperada de fome, ferida e cansada da longa, arriscada e solitária aventura por aqueles ermos selvagens e cheios de perigos. Quantas lutas não teria aquele bichinho enfrentado? Quando a gatinha viu os meninos esfregou-se nas pernas deles e deu grandes mostras de reconhecimento, mas eles nem pensaram em levá-la de volta para o Lageado. Ali ela ficaria, como recompensa por sua esperteza, tenacidade e bravura, senhora do território que conhecia tão bem e para onde tinha conseguido voltar enfrentando um trecho tão perigoso e difícil. Como teria ela atravessado o rio caudaloso na volta?  Nunca mais ninguém tentou tirá-la de casa e ela morreu de velha vários anos depois.