quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Reintroduzindo...

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Quando os buques de guerra dos navegadores nórdicos, ornados com carrancas de dragão ou serpente marinha, velas quadradas, as fileiras de remos e os escudos redondos protegendo as amuradas, apareciam no horizonte de volta de suas campanhas, a comunidade se mobilizava para preparar o banquete. O Hall era limpo, a grande mesa circular montada, a lareira acesa com boa lenha, o rei vinha vestido com seus melhores trajes e ataviado com todos os emblemas de sua posição, tomava lugar entre as colunas que o distinguiam e dava a ordem para que a festa acontecesse. Eram oferecidos sacrifícios a Thor ou a Odin. Músicos atacavam seus instrumentos, a comida era servida, os homens comiam, bebiam, cantavam e faziam muito barulho. Não sei se havia uma ordem para essas coisas, ou se em todas essas festas todas elas aconteciam, mas havia um momento solene, quando era exigido silêncio e atenção aos comensais, e este era quando o bardo que sempre acompanhava as expedições ia narrar a saga.

Esses eram povos que viviam muito ao norte, num clima inóspito e numa terra de poucos animais e escassos recursos. Essas culturas desenvolveram-se, principalmente, sobre a guerra e a pilhagem. Suas frágeis embarcações atingiram o Mediterrâneo e o norte da África; passaram além da Groenlândia e aportaram onde hoje é a América do Norte, e quem sabe onde mais eles chegaram. A saga era a narrativa heroica, idealizada, desses acontecimentos: os meses no mar, a sangueira da guerra, a crueldade da conquista, a morte por hipotermia, desinteria, tétano, no fio de um machado, na ponta de uma lança, levado pela tempestade; a miséria física e o risco daquela frágil estrutura de madeira ser despedaçada pelos elementos da natureza, tudo transmutado em signos de glória e exaltação. A saga aproximava os homens dos deuses. A ação humana adquiria um significado no teatro cósmico, onde as forças da ordem e do caos (fogo contra gelo) combatiam umas com as outras, e os guerreiros que morriam honrosamente nas batalhas passavam os dias em guerras recreativas e as noites em festins com os deuses e as Valquírias no grande Hall de Asgard. Todos aguardando o advento do final do universo conhecido, quando então se daria a última de todas as batalhas, o Crepúsculo dos Deuses, o Ragnarok...

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Saga. A narrativa heroica de uma jornada, uma campanha ou expedição. Aqui, no nosso caso, de uma vida humana que já dura mais de noventa anos. Candinho nunca foi um guerreiro aos moldes daqueles grandalhões ruivos do norte. Ele sempre foi um sujeito miúdo, cabeça grande, quase frágil (agora, aos noventa e dois, quase transparente...), magrelo na juventude, gorducho entre os quarenta e os sessenta e poucos, magrelo de novo agora velhinho, e sempre de cabeça grande, em muitos sentidos. É uma saga diferente daquelas dos navegadores e guerreiros do norte gelado, acontecida numa terra quente e fértil, ao sul, próxima ao Trópico de Capricórnio, em meio a florestas exuberantes que estavam se acabando pela ação humana e cidades que estavam nascendo das terras férteis, adubadas com muito suor e promessas de progresso.

Norte do Paraná, décadas de 1920 e 30. Do nascimento, em 1918, até a morte de Valdemar, em 1937, o primeiro grande ciclo da vida de nosso heroi/sobrevivente. Candinho nunca participou de guerras, nunca matou ninguém, nunca navegou muito longe, não descobriu terras, não foi rei nem general. Nada de extraordinário, mas tudo de extraordinário. A narrativa heroica da vida de um homem como qualquer outro e não tão longe assim no espaço ou no tempo.

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Quem já esteve passeando por este blog e leu as postagens mais antigas, sabe que um dos principais objetivos desta mídia aqui é funcionar como o laboratório onde será feita a montagem de um material acadêmico para apresentação de Trabalho de Conclusão de Curso em História pela Universidade Estadual de Londrina. Mas o objetivo principal é mesmo prestar honras a um bravo camarada que conheço desde que me entendo por gente e que ainda se encontra por aí neste mundo. O trabalho acadêmico continua, em postagens/capítulos “marginais”, anotações “de pé de página” sobre história e memória, cognição, cultura e representações, os grandes ciclos da história recente do Brasil, do Mundo e do estado do Paraná, principalmente a região denominada de Norte Pioneiro no primeiro grande ciclo da saga, e o Norte Novo depois. Entre Santo Antonio da Platina e Londrina, passando pelo Lageado, depois Cornélio Procópio, Curitiba, Vale da Ribeira e Congonhinhas.

Vamos começar, a partir da próxima postagem, a publicar a Saga de Candinho, em ordem e cronologia.

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