terça-feira, 1 de março de 2011

O Sítio

Viviam do que a terra lhes concedia em troca do seu trabalho e respeito. Possuíam um pequeno sítio no Ubá, que produzia cana, café em coco, algodão em pluma, milho, feijão, mandioca e abóboras; tinham sempre ovos de uma galinhada criada solta, porcos, vacas leiteiras e seis parelhas de bois de tração bem rústicos e pesados que eram usados para transportar fosse o que fosse de carro e também para mover o engenho que moia a cana. Os bois trabalhavam presos pelas cangas, grandes peças de madeira em forma de ferradura que se fixavam como colarinhos nos pescoços dos animais e eram guarnecidas com almofadas de capim ou paina, forradas com sacos de estopa ou outro tecido grosseiro para não cortar a pele dos animais com a constante fricção. Eram unidas por uma trave na qual se fixava o varal principal do carro ou as correntes que faziam mover o engenho vertical. As juntas eram sempre conduzidas por um pioneiro, boi mais velho ou mais pesado, líder natural que ia conduzindo os bichos e direcionando seu destino, puxando o carro ou andando em círculos para movimentar a moenda de cana.


A cana cortada na roça ia arrumada sobre os carros em enormes feixes e assim puxada até o engenho. Era então descarregada, empilhada estrategicamente na entrada do barracão e os bois desatrelados eram deixados descansando, ruminando ou bebendo água por alguns minutos até, pouco depois, serem colocados para mover a máquina de madeira, composta por três toras roliças paralelas encostadas na vertical. A tora do meio era mais grossa e longa que as outras e tinha um eixo que ia encaixado numa perfuração da pesada trava horizontal que a ancorava acima. Logo abaixo dessa trava, fixada no tronco maior, projetava-se uma alavanca da qual pendiam correntes que seriam atreladas às cangas dos bois, a força de tração que movimentava todo o conjunto, idealizado e construído por Candido antes de Candinho nascer. Entre as três toras, firmemente travadas acima por outra peça de madeira que ficava logo abaixo da alavanca, e afixadas no chão numa pesada base (que talvez fosse) de concreto, funcionavam engrenagens de madeira que faziam o engenho trabalhar. A cana era esmagada entre a tora central e as laterais, e a garapa extraída escorria por uma canaleta de madeira até um depósito que ficava embaixo desse conjunto, em cima da base. Era um cocho fixo (Cochos são caixas de madeira, às vezes feitas com tábuas encaixadas e cheias de água até encharcar e inchar vedando os encaixes, às vezes feitos com troncos cortados pela metade e escavados, estes utilizados principalmente na alimentação dos animais) com uma bica que derramava a garapa em baldes ou cochos menores que podiam ser transportados até o galpão anexo, onde esse caldo era derramado nos enormes tachos de cobre ajeitados sobre fogões de pedra em que ardiam grandes fogueiras alimentadas à base de muita lenha seca. A miúda e ativa Etelvina cuidava de tudo ali, desde que a cana chegava ao engenho até que, no barracão quente como uma fornalha, depois de horas e horas fervendo e apurando o caldo, mexendo sempre, sem parar, até formar o melado, o melado engrossar e chegar ao ponto de rapadura. Aquela pasta doce e fervente era despejada então num tablado de madeira com moldes quadrados e alisada com uma longa espátula ou pá até preencher cada um dos espaços. Horas depois, quando aquilo já estava frio, era raspado por cima para tirar o excesso e os tijolos, depois de desenformados e embrulhados na palha de milho estavam prontos para a comercialização.

Rapadura era o principal produto do sítio, o que dava condições de sobrevivência à família, e os bois eram a força bruta que fazia as coisas funcionarem por ali. Candido e o Véio Dito administravam canavial, pastagem e bois, mas era Daniel o responsável pelo bem estar dos animais: os bichos ficavam soltos no pasto até a hora da lida, quando então eram reunidos e atrelados aos carros que iam buscar a cana, desatrelados na volta da roça, depois presos ao engenho para movimentarem a moenda. Cumpridas as tarefas, eram levados de volta até o pasto para descansarem até o dia seguinte, quando então começaria tudo de novo.

De tempos em tempos, Candido levava as rapaduras para Jacarezinho e, menos vezes, para Santo Antonio da Platina, para serem comercializadas. Iam, em cada pacote, dois tijolos de até 1 kg de peso cada, embrulhados juntos na palha de milho, empilhados no carro de boi com outras mercadorias, sacolejando até o destino final. Jacarezinho era a maior cidade e centro regional daquelas redondezas, e o carro também servia para transportar a família ou parte dela para irem até lá (ou até Santo Antonio da Platina) passear, visitar um amigo ou parente, se consultar com o médico, Dr. Gustavo Lessa, pegar remédios na farmácia do Otacílio Fortes, comprar mantimentos.
Este é um período quase lendário da vida do protagonista desta história. Candinho tem lembranças muito vívidas da infância e juventude, de boa parte das coisas mais importantes que terminaram por constituir seu caráter e personalidade. É também, do ponto de vista do organizador destas memórias, o material mais rico e que mais puxa pela imaginação, por serem eventos acontecidos quase um século atrás numa região rude e selvagem que, hoje, é o norte do Paraná, uma imensa área maior que alguns países, onde a terra foi dividida e cultivada, pontilharam cidades, quase que se acabaram as matas e dificilmente seria reconhecida por um cidadão daquela época hoje, mais de 80 anos depois.

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