quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Reintroduzindo...

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Quando os buques de guerra dos navegadores nórdicos, ornados com carrancas de dragão ou serpente marinha, velas quadradas, as fileiras de remos e os escudos redondos protegendo as amuradas, apareciam no horizonte de volta de suas campanhas, a comunidade se mobilizava para preparar o banquete. O Hall era limpo, a grande mesa circular montada, a lareira acesa com boa lenha, o rei vinha vestido com seus melhores trajes e ataviado com todos os emblemas de sua posição, tomava lugar entre as colunas que o distinguiam e dava a ordem para que a festa acontecesse. Eram oferecidos sacrifícios a Thor ou a Odin. Músicos atacavam seus instrumentos, a comida era servida, os homens comiam, bebiam, cantavam e faziam muito barulho. Não sei se havia uma ordem para essas coisas, ou se em todas essas festas todas elas aconteciam, mas havia um momento solene, quando era exigido silêncio e atenção aos comensais, e este era quando o bardo que sempre acompanhava as expedições ia narrar a saga.

Esses eram povos que viviam muito ao norte, num clima inóspito e numa terra de poucos animais e escassos recursos. Essas culturas desenvolveram-se, principalmente, sobre a guerra e a pilhagem. Suas frágeis embarcações atingiram o Mediterrâneo e o norte da África; passaram além da Groenlândia e aportaram onde hoje é a América do Norte, e quem sabe onde mais eles chegaram. A saga era a narrativa heroica, idealizada, desses acontecimentos: os meses no mar, a sangueira da guerra, a crueldade da conquista, a morte por hipotermia, desinteria, tétano, no fio de um machado, na ponta de uma lança, levado pela tempestade; a miséria física e o risco daquela frágil estrutura de madeira ser despedaçada pelos elementos da natureza, tudo transmutado em signos de glória e exaltação. A saga aproximava os homens dos deuses. A ação humana adquiria um significado no teatro cósmico, onde as forças da ordem e do caos (fogo contra gelo) combatiam umas com as outras, e os guerreiros que morriam honrosamente nas batalhas passavam os dias em guerras recreativas e as noites em festins com os deuses e as Valquírias no grande Hall de Asgard. Todos aguardando o advento do final do universo conhecido, quando então se daria a última de todas as batalhas, o Crepúsculo dos Deuses, o Ragnarok...

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Saga. A narrativa heroica de uma jornada, uma campanha ou expedição. Aqui, no nosso caso, de uma vida humana que já dura mais de noventa anos. Candinho nunca foi um guerreiro aos moldes daqueles grandalhões ruivos do norte. Ele sempre foi um sujeito miúdo, cabeça grande, quase frágil (agora, aos noventa e dois, quase transparente...), magrelo na juventude, gorducho entre os quarenta e os sessenta e poucos, magrelo de novo agora velhinho, e sempre de cabeça grande, em muitos sentidos. É uma saga diferente daquelas dos navegadores e guerreiros do norte gelado, acontecida numa terra quente e fértil, ao sul, próxima ao Trópico de Capricórnio, em meio a florestas exuberantes que estavam se acabando pela ação humana e cidades que estavam nascendo das terras férteis, adubadas com muito suor e promessas de progresso.

Norte do Paraná, décadas de 1920 e 30. Do nascimento, em 1918, até a morte de Valdemar, em 1937, o primeiro grande ciclo da vida de nosso heroi/sobrevivente. Candinho nunca participou de guerras, nunca matou ninguém, nunca navegou muito longe, não descobriu terras, não foi rei nem general. Nada de extraordinário, mas tudo de extraordinário. A narrativa heroica da vida de um homem como qualquer outro e não tão longe assim no espaço ou no tempo.

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Quem já esteve passeando por este blog e leu as postagens mais antigas, sabe que um dos principais objetivos desta mídia aqui é funcionar como o laboratório onde será feita a montagem de um material acadêmico para apresentação de Trabalho de Conclusão de Curso em História pela Universidade Estadual de Londrina. Mas o objetivo principal é mesmo prestar honras a um bravo camarada que conheço desde que me entendo por gente e que ainda se encontra por aí neste mundo. O trabalho acadêmico continua, em postagens/capítulos “marginais”, anotações “de pé de página” sobre história e memória, cognição, cultura e representações, os grandes ciclos da história recente do Brasil, do Mundo e do estado do Paraná, principalmente a região denominada de Norte Pioneiro no primeiro grande ciclo da saga, e o Norte Novo depois. Entre Santo Antonio da Platina e Londrina, passando pelo Lageado, depois Cornélio Procópio, Curitiba, Vale da Ribeira e Congonhinhas.

Vamos começar, a partir da próxima postagem, a publicar a Saga de Candinho, em ordem e cronologia.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

22 de Maio de 1937

Candinho: Na época em que morávamos no Lageado o papai era subdelegado nomeado pelo delegado regional de Jacarezinho que era a comarca à qual pertencia o município de Santo Antonio da Platina, e pertencendo ao município de Santo Antonio da Platina o patrimônio e distrito judiciário do Lageado, criado pelo governo de Getúlio Vargas em 1929, que era onde nós morávamos. Era delegado regional, se não me falha a memória, Dr. Alcântara, em Jacarezinho, que era quem supervisionava a delegacia de Santo Antonio da Platina e a subdelegacia do Lageado. Tinha chegado recentemente, oriundo do estado de São Paulo, e sido nomeado delegado de Santo Antonio da Platina, o Osório Silva, que se casou com nossa prima Benedita, sobrinha de meu pai. Como meu pai era altivo e não gostava de receber ordens e o Osório Silva era um tipo mandão, prepotente e autoritário, inclusive com os policiais que o acompanhavam nas diligencias...
... A subdelegacia do Lageado era vinculada à delegacia regional de Jacarezinho, que era a comarca. Quando havia problemas a serem resolvidos referentes à subdelegacia do Lageado, meu pai não procurava o Osório e sim o delegado regional em Jacarezinho, com quem trocava informações sobre os problemas oriundos da...
... Em alguns casos o delegado regional dizia ao meu pai: “é, você pode tratar desse assunto com o delegado de Santo Antonio da Platina”, e meu pai não queria, dado a indisposição já existente entre eles, dar satisfação ao Osório Silva, mesmo ele sendo casado com a nossa prima. O Osório Silva ficou magoado, começou a fazer pressão política e pessoal, e não fazia questão de disfarçar que tinha mesmo uma diferença com o subdelegado, meu pai. Em pouco tempo, dada a divergência, meu pai pediu demissão e deixou o cargo... Não, ele não chegava a ameaçar, mas o que acontece é que com toda a pressão e indisposição... O Osório pressionou bastante o delegado regional de Jacarezinho para que substituísse papai na subdelegacia do Lageado...
... Foi nomeado o Jango como substituto do meu pai, indicado pelo Osório Silva. Em decorrência dessa nomeação é que ele passou a... – não perseguir diretamente meu pai e meus irmãos –... Mas demonstrava mau-humor e má vontade... Até que, na noite de 22 de maio de 1937...


22 DE MAIO DE 1937

Ouviam o noticiário. O rádio estava ligado na Inconfidência, de Minas Gerais. Passavam talvez vinte e poucos minutos das nove da noite de vinte e dois de maio de 1937, e Candinho tinha completado dezenove anos quinze dias antes. Dali a pouco iriam pegar o carreiro de uns seis quilômetros de volta pra casa, no sítio da família, só terminar de ouvir o que estavam falando na rádio... O bar já tinha sido de Cândido, então era tudo familiar: um espaço quadrado de uns dez metros, onde tinha uma sorveteira e algumas prateleiras no fundo. Candinho estava prestando toda sua atenção ao noticiário, mas a partir daqui ele não se lembra mais do que é mesmo que ouviam. Havia pessoas dentro do bar, mas Candinho não se lembra do que aconteceu com os outros. O objetivo era os irmãos, filhos do ex-subdelegado. Pode ser que Candinho estivesse mais perto do fim do balcão, mas a certeza é de que havia um desses baleiros de vidro giratórios bem ao lado de onde estava encostado. Ele não estava distraído, mas, mesmo assim, o movimento o pegou de surpresa. Reconheceu Jango e Elias Carvalho que lideravam os bandidos. Os jagunços pararam, meio passo para dentro, em todas as portas do bar, Jango declarou em alto e bom som que estava ali para desarmar quem quer que estivesse armado e, ato contínuo, começaram a atirar. Os irmãos Daniel e Valdemar estavam ali ao lado, e ele percebeu que Daniel soltava um gemido e levava as duas mãos à barriga enquanto sua cara se contorcia num esgar. Viu que Valdemar saía correndo pela porta da esquerda, e supôs que ele estivesse com o revólver Smith & Wesson calibre 32 que Cândido havia deixado com os irmãos para que se protegessem. Viu que os jagunços penetravam no bar e num instante, como um serelepe, não sabe bem como, estava já do outro lado do balcão enquanto o baleiro estourava com o tiro e as balas doces choviam sobre sua cabeça e pelo chão, misturadas com cacos de vidro. Ficou ali abaixado respirando forte e não viu mais o que aconteceu até que os estampidos cessaram. Candinho só ouvia sua própria respiração ofegante e os gemidos de dor de Daniel que se contorcia no chão, sangrando, baleado no abdome. Arriscou uma olhada para o lado de fora do balcão e não viu nada. Ouviu uns latidos distantes e sentiu a barriga gelada e a nuca dura. Sua cabeça estava clara como se tivesse acendido uma luz dentro dela. Saiu de seu esconderijo e viu Daniel, ferido e sangrando, que se erguia com dificuldade. Foi indo para a porta da esquerda, por onde Valdemar tinha saído, um pé depois do outro, e, de repente, estava na noite, do lado de fora. Viu o corpo do irmão, abatido a seis ou sete passos da porta, caído no chão de costas; abaixou-se e puxou-o pelo braço, pensou que estava dormindo ou desmaiado, chamou-o pelo nome e fez que tentou levantá-lo quando viu, num golpe de vista, dois dos pistoleiros encostados a uma cerca do outro lado da rua. Os pistoleiros também o viram e apontaram suas armas. Então Candinho correu como nunca antes em sua vida, alucinado e desorientado, sem saber para onde ir. Os tiros passavam perto dele e explodiam na poeira à sua frente...
... A Cesarina, irmã do Vicente Lino, que era o padrinho de crisma de Candinho, e dono de uma pensão que ficava alguns metros rua abaixo, estava indo para a cama quando escutou os tiros e a gritaria. Foi até a porta da rua, entreabriu-a e olhou para fora, à espera de que alguma coisa acontecesse. Após mais alguns intermináveis segundos de silêncio, ela escutou mais gritos e tiros, e viu que Candinho descia a rua, correndo feito louco... Candinho viu que a porta da pensão do padrinho estava entreaberta e ouviu chamarem o seu nome lá de dentro. Entrou correndo, encolheu-se num canto e ficou ali até ter certeza de que tinha passado. Foi uma longa noite em claro.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

O lugar


A estrada que vinha desde Santo Antonio da Platina terminava na rua principal do Lageado, onde havia aí umas 50 casas de chão batido que ficavam dos dois lados dessa rua e, entre as casas, a espaços irregulares, abriam-se pequenas transversais que iam dar em picadas no meio do mato ou nas roças onde o povo dali trabalhava. Mais além, quase à beira do ribeirão, erguia-se a igrejinha de ripas de palmito coberta com tabuinhas, bem perto de uma mina de águas muito límpidas e cristalinas que abastecia a maior parte da população do lugarejo. Não era sempre que aparecia um padre para rezar a missa aos domingos – só uma vez ou outra, quando vinha um de Santo Antonio da Platina, quase sempre em ocasiões festivas. Então os católicos dali, tementes a Deus e cuidadosos de suas almas, reuniam-se na capelinha durante a semana para rezar o terço. E ainda em todas as ocasiões que a comunidade tinha que se reunir para decidir qualquer coisa, era lá que acontecia. Mas não demorou muito para o lugar ser elevado a paróquia e chegar um padre morador para colocar as coisas nos eixos.

Depois do Inverno...


Agora, já que acabou o Inverno, voltemos ao que viemos de fato fazer aqui. As primeira ações da Primavera serão a postagem de um trecho que conta a mudança da família de Santo Antônio da Platina para o Patrimônio do Lageado, alguns episódios acontecidos no patrimônio durante os dez anos que a família ficou por lá e o tema principal do TCC, que se refere à morte de Valdemar. Parte deste material já foi publicado em outras postagens, mas é aqui que começamos a localizar os eventos que resultaram na morte de Valdemar. Um pouco de narrativa agora e daqui a pouco voltamos ao trabalho acadêmico...

Mudança para o Lageado

Santo Antonio da Platina era praticamente uma comunidade rural. Todos dependiam, direta ou indiretamente, do trabalho no campo. Produzia-se milho e algodão, feijão e café, criavam-se porcos e galinhas. Cândido, após ter ele próprio trabalhado na roça, ganhando seu sustento e o da sua família como agricultor; tocado a serraria e depois uma carpintaria, estava agora com um pequeno comércio, um armazém de secos e molhados que fornecia mantimentos, ferramentas, tecidos e miudezas, negociando, como se fazia naquela época, na honradez do fio de bigode e nos valores anotados em caderneta, pagos sem juros em 30, 60 ou 90 dias, ou quando os produtos da terra eram comercializados.
Aquele ano de 1928 foi especialmente difícil. No ano anterior uma série de condições desfavoráveis havia comprometido os resultados do trabalho do campo e todos estavam sem dinheiro para acertar suas contas: os porcos foram acometidos de peste e centenas deles tiveram que ser sacrificados; choveu torrencialmente no último período de colheita de algodão e quase toda a safra se perdeu; as espigas de milho não granaram direito e deram uns grãozinhos minúsculos e duros como pedra que até as galinhas rejeitavam, ou então mofaram e apodreceram fechadas nas palhas. E, como se não fosse suficiente, bastaram alguns dias de sol depois da chuvarada e a cidade foi invadida por milhões de mosquitos, que saiam a devorar as pessoas todos os fins de tarde. A cidade amanheceu com malária. Dezenas de homens fortes não puderam se levantar de suas camas e ali ficaram dias, batendo os dentes com a febre terçã (Candinho sabe, mais ou menos, de cinco ou seis mortes pela febre entre bebês e pessoas muito velhas e já doentes). O trabalho nos campos quase parou. A sobrevivência começou a ficar muito difícil naquela situação e o fantasma da fome começou a assombrar aquela gente. Parecia praga bíblica.
A venda de Cândido chegou à beira da falência e alguma coisa precisava ser feita a respeito. Não muito longe dali estava sendo implantado o patrimônio do Lageado, que depois seria Carvalhópolis e, depois ainda, município de Abatiá. O chefe da família tinha ouvido falar bem do lugar. Dizia-se que, ali, a doença dos porcos não havia chegado e os produtos da terra tinham dado bem naquela safra. Várias pessoas e famílias mineiras da região de Ubá que eram suas conhecidas estavam indo para lá. Viajou até o patrimônio e fechou negócio numa grande casa de madeira que tinha um salão de frente onde daria para acomodar muito bem o negócio de secos e molhados, e alguns aposentos de fundos onde poderia instalar toda a família. Ficou decidido que eles mudariam para o Lageado.

Foram necessários vários dias, três carros de bois e cinco carretas de burros para acomodar tudo, a mudança da família e o estoque do armazém. Foi construído um pequeno engradado de madeira para acomodar a gatinha vira-lata que dormia na despensa e servia de mascote para as crianças e, numa manhã mal começada, logo aos primeiros raios de sol, Cândido vistoriou os volumes, ajeitou uma coisa aqui, outra ali, conferiu as amarras das cargas e se o pessoal estava bem instalado, tomou assento ao lado do condutor do primeiro carro e deu a ordem de partida.
Era uma viagem de pouco mais ou menos que 30 quilômetros até a margem do ribeirão Lageado. Fariam uma rápida passagem no bairro de Santa Joana, onde pegariam mais um volume na casa de parentes, a meio caminho do rio das Cinzas, primeira etapa da viagem. A comunidade do Lageado ficava do outro lado do rio que tinha que ser transposto através de uma balsa movida a tração humana num trecho de uns 80 a 100 metros de largura. Chegaram à margem no meio da tarde do primeiro dia, e então começou a complexa operação de travessia: de um em um ou dois em dois, de acordo com suas cargas e para manter o equilíbrio na embarcação tosca, eram embarcados os carros ou carretas com seus respectivos carreiros e um ou dois membros da família, mais os balseiros de braços fortes que puxavam os cabos de aço esticados como varais entre uma e a outra margem do rio e que corriam por roldanas.
Quando chegaram, tudo e todos, enfim, do outro lado, já era noite. Restava fazer alguma coisa ligeira para comer e bivaquear até a madrugada seguinte, para saírem antes do sol nascer.
Foram dois dias de jornada dessa caravana desde Santo Antônio até o Lageado, e eles chegaram no entardecer do segundo dia de viagem. Nem bem pararam os carros, Cândido abriu as portas de seu novo armazém e casa, improvisou um balcão com caixotes e expôs a mercadoria que tinha trazido: tecidos e sal; pó de café e ferragens; calçados e querosene; farinha e agulhas; charque e açúcar; feijão e toucinho; macarrão e lamparinas. A gata foi libertada de seu engradadinho de madeira, estudou um pouco as redondezas e não encontrou sua casa por ali, então sumiu pelo mundo. Passaram a maior parte da noite ajeitando as coisas, ocupando os espaços vazios, limpando, entrando na função madrugada adentro. Certa hora Candinho não viu mais nada porque desabou e foi colocado para dormir numa das camas que Etelvina e Aurora já tinham preparado. Acordou dia claro, com o armazém já em pleno funcionamento. Candinho e Ides saíram para explorar o lugar; foram até a beira do ribeirão, a igrejinha de palmito, encontraram outros garotos, conversaram, se conheceram e perguntaram pela gata. Ninguém a tinha visto.
O patrão abriu cedo seu comércio naquele dia de inauguração, os negócios correram muito bem e ele ficou entusiasmado. Já no primeiro dia Candinho fez alguns pequenos trabalhos no armazém, levando e trazendo uma coisa ou outra de lá para cá e daqui para lá, mas só assumiu a responsabilidade por tarefas mesmo lá pelo terceiro ou quarto dia, quando as condições e caminhos do local passaram a ser melhor conhecidos.
Lá pela metade da segunda semana após a chegada ao Lageado, Candinho e Daniel, o mais novo e o mais velho dos filhos homens, foram a cavalo até Santo Antônio da Platina para encerrar uma coisa ou outra. Foram primeiro direto para a casa de uma tia, onde encontraram a gatinha (ou a gatinha os encontrou), que havia chegado ali de volta mais ou menos uma semana depois da mudança, miando de dar dó, desesperada de fome, ferida e cansada da longa, arriscada e solitária aventura por aqueles ermos selvagens e cheios de perigos. Quantas lutas não teria aquele bichinho enfrentado? Quando a gatinha viu os meninos esfregou-se nas pernas deles e deu grandes mostras de reconhecimento, mas eles nem pensaram em levá-la de volta para o Lageado. Ali ela ficaria, como recompensa por sua esperteza, tenacidade e bravura, senhora do território que conhecia tão bem e para onde tinha conseguido voltar enfrentando um trecho tão perigoso e difícil. Como teria ela atravessado o rio caudaloso na volta?  Nunca mais ninguém tentou tirá-la de casa e ela morreu de velha vários anos depois.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

O Material

O último texto postado contava a história da criação do Distrito Judiciário do Lageado, ocorrido em 1929, e do decreto de Getúlio Vargas que determinava que todos os cartórios fizessem gratuitamente o registro civil de quantos cidadãos brasileiros os procurassem para esse fim. Candinho já aprendera a escrever com o professor Cunha, que aplicava bolos de palmatória nos alunos malcriados, anos antes, em Santo Antonio da Platina, e entrou para trabalhar no cartório com a primeira máquina de escrever que via na vida. Datilografou centenas de registros de nascimento e certidões de casamento, escreveu cartas e mais cartas a parentes distantes para mostrar a eles como se dava bem com aquela impressionante novidade tecnológica e como o distante lugar conhecido como Lageado já fazia parte do mundo moderno.
Na narrativa estão localizados vários elementos que remetem aos grandes ciclos da história do Brasil, e vários elementos de uma história particular. A criação do distrito, o decreto getulista, o cartório, a máquina de escrever, os registros civis, tudo faz parte de uma memória única, ao mesmo tempo histórica e pessoal. A nomeação de Candido como subdelegado começa a indicar para a rixa com o delegado regional Osório Silva, mas este é assunto para o TCC. Aqui é o trabalho de tópicos de contemporânea.
Utilizando a narrativa como exemplo ou introdução à proposta propriamente dita, a ideia é que os alunos pesquisem e tragam para a sala de aula dados de suas memórias pessoais ou familiares, e trabalhem com esses dados construindo representações referenciadas no contexto social e/ou cultural da época e local a que se referem (no caso da narrativa em questão, o Distrito do Lageado nos anos de 1929/30). O que o pai (ou mãe, avô ou avó, bisavô ou bisavó) fazia enquanto a Grande História acontecia? Onde ele estava, onde morava, no que pensava? Qual o significado dessas coisas para mim? O que acontecia nos outros lugares enquanto isso?
O texto que conta sobre a criação do Distrito Judiciário e da Subdelegacia do Lageado e as fotos já postadas neste blog serão utilizados como pontos de partida para os efeitos de construção deste projeto.
As fotos, uma que mostra o povo do Patrimônio reunido para a festa de Santo Antonio no dia 23 de Junho de 1928 e a outra, que mostra quatro dos habitantes do local (um desconhecido, dois irmãos mais velhos e o pai de Candinho), segundo meu pai foram tiradas no mesmo dia e são todo o registro fotográfico de sua infância e do período em que sua família morou no Lageado:

[...] Para ali acorreu um fotógrafo viajante que estava vindo de Santo Antonio da Platina com seu tripé, sua máquina de caixote e sua mala de equipamentos. Montou seu estúdio debaixo de uma árvore que oferecia boa sombra e começou a trabalhar. Candinho tem só duas fotos do Lageado, e garante que foram todas tiradas no mesmo dia – neste dia e pelo fotógrafo itinerante (de quem o nome, até prova em contrário, está irremediavelmente perdido) que chegou com sua equipagem e passou o dia – uma parte do outro também – fotografando tudo o que fosse fotografável por ali. É desse dia a única fotografia conhecida de Candinho na infância. Ele é o terceiro da esquerda para a direita, quase irreconhecível, mas note-se o pano na canela, o chapeuzinho na cabeça, as mãos nos bolsos e a pose meio que atrevida. Tem ainda um rapazote à sua direita que pousa a mão em seu ombro e que Candinho não faz a menor ideia de quem seja (ou era). [...]

Estrutura das atividades:
Análise das fontes (narrativas e imagens) no contexto dos grandes ciclos da história e à luz do que elas revelam em termos de cultura material: a foto que abre este blog, por exemplo, uma das duas que restaram do Lageado, mostra como era, em 1928, o lugar que hoje faz parte do centro de uma cidade do Norte Pioneiro do Paraná, Abatiá. Como era aquela paisagem, como são as construções que aparecem, como se vestem, como se parecem as pessoas. Em outra abordagem do mesmo material, colocar a figura do fotógrafo itinerante naquela época e contexto, a relativa dificuldade de se registrar imagens e a importância de um personagem assim para, por exemplo, propiciar a única foto que se tem notícia de Candinho na infância. Ou depois, com o caso da máquina de escrever, como é, para uma criança do século XXI imaginar que não tão longe daqui no tempo e no espaço a coisa mais parecida que havia com um computador de hoje era a máquina de escrever mecânica. Incentivar os alunos a fazer o papel de pessoas que vivessem naquelas condições.
Realização de uma pesquisa dos estudantes em suas casas sobre itens de suas memórias pessoais ou familiares; objetos, imagens, depoimentos orais, relacionados à época pesquisada. Formação de pequenos grupos por afinidade que farão um trabalho de construção de representações relacionadas com o tempo e o contexto do tema do estudo a partir dos itens de memória que tenham coletado.

Como:
Leitura dos textos e exposição das imagens e discussão aberta sobre eles; pesquisa e apresentação dos resultados desta; formação dos grupos, por afinidade temática ou outras; construção e apresentação das representações (cartazes, Histórias em Quadrinhos, trabalhos escritos, colagens, representações teatrais, Hip Hop, qualquer linguagem).
O professor será aquele que, primeiro apresentará o contexto da história dos manuais, depois a proposta da história particularizada, e será responsável por toda a dinâmica da pesquisa, da formação e orientação dos grupos, além de facilitador no sentido de que fará as necessárias pontes entre a história particularizada por um recorte ou item de memória pessoal e familiar e a história dos grandes eventos. Funcionará, nesta fase, como uma espécie de coordenador e consultor de roteiro das montagens e apresentações...

Ainda está incompleto. Como já foi escrito em alguma das postagens anteriores, isto aqui é um trabalho em construção e as últimas postagens foram feitas com o objetivo de cumprir a tarefa de avaliação da disciplina de Tópicos de Ensino em História Contemporânea, primeiro semestre do ano letivo de 2010. O trabalho não seguiu rigorosamente o roteiro proposto, mas creio que conseguiu dizer ao que veio, embora esteja mais parecido com um projeto de oficina. Por outro lado, o processo de acabamento desses textos e montagem do blog tem sido de enorme valia para a formatação de meu projeto de TCC. Este trabalho está entregue aqui, mas o blog continua.

Aqui fecha o parênteses)

Referências Bibliográficas

Livro didático:
PERUZIN TUMA, Magda Madalena: Coleção Viver é Descobrir... História do Paraná – Editora FTD, 1ª edição – SP, 2008

Memória, biografia, testemunho:
BOURDIEU, Pierre. L’Illusion Biographique. Actes de la Recherche en Sciences Sociales (62/63): 69 – 72, juin 1986

FRANK, Jean & LANDIERA FERNANDEZ, J.: Rememoração, Subjetividade e as Bases neurais da Memória Autobiográfica – Psicologia Clínica, vol.18, nº. 01, pág. 35 – 47, Rio de Janeiro, 2006

GAUER, G. & GOMES, W.G.: A experiência de recordar em estudos da memória autobiográfica: aspectos fenomenais e cognitivos. Memorandum, 11, 102-112.- http://www.fafich.ufmg.br/~memorandum/a11/gauergomes01.pdf 102 Memorandum 11, out/2006 – Belo Horizonte: UFMG; Ribeirão Preto: USP

KOLLERITZ, Fernando: Testemunho, Juízo Político e História – Revista Brasileira de História. São Paulo, v. 24, nº. 48, p. 73-100 – 2004

Conjuntura:
MÜLLER, Nice Lecocq: CONTRIBUIÇÃO AO ESTUDO DO NORTE DO PARANÁ - revista Geografia, Londrina, v. 10, n. 1, p. 89-118, jan./jun. 2001

RAGGIO, Nadia Zaiczuk: Norte Novo do Paraná: Transformações no Campo e a Questão do Acesso à Terra – dissertação de mestrado em sociologia – Unicamp, Campinas, 1985

CANCIAN, Nadir Aparecida: Cafeicultura Paranaense 1900/1970 – Grafipar, Curitiba, 1981

Fonte Primária: Depoimentos de Candido Batista de Souza, meu pai Candinho, narrados por ele, gravados e transcritos por mim, trechos de livro em preparação. Memória, história oral.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Tópicos de Contemporânea

(Aqui abre um parênteses para o trabalho de tópicos de contemporânea -

informações de capa
Depois de algum tempo sem postagens (isto aqui é um trabalho em construção e obedece ao tempo da vida que, num final de semestre, quando se tem que concluir coisas ao mesmo tempo em que surgem tarefas novas, sem internet instalada em casa e dependendo de lan houses e dos computadores da UEL, passa com muita velocidade), uma postagem pontual, destinada a cumprir uma tarefa de avaliação da matéria de Tópicos de Ensino em História Contemporânea, do quarto ano de graduação em História da Universidade Estadual de Londrina, do Centro de Letras e Ciências Humanas, Departamento de História, disciplina sob responsabilidade do Professor Doutor José Miguel Arias Neto.

Este trabalho já está sendo feito dentro de uma linguagem virtual e contemporânea por si mesma, mas este não é o formato definitivo dele. O blog é um laboratório onde serão experimentadas formas de linguagem e utilização para o trabalho. Aqui, a ideia é criar – ou projetar – um material didático destinado à 5ª série do ensino fundamental a partir do livro didático que foi objeto de trabalho entregue há poucos dias, e do tema (ou de assuntos) presente(s) neste trabalho. O material proposto aqui pretende que os alunos experimentem a história colocando-se mais pessoalmente nela, a partir de referências reconhecíveis, fatos e/ou personagens particulares inseridos na Grande História e que lhes digam respeito de forma mais ou menos direta.
Para tanto serão trabalhadas a análise de documentos escritos e imagens e o suporte metodológico da história oral. Os alunos deverão trazer à sala de aula documentos, imagens, objetos ou narrativas que se refiram à época ou aos tipos de personagens abordados pela história da formação do Norte do Paraná, estes elementos contextualizados dentro do tema da(s) aula(s) e os alunos incentivados a estabelecer uma empatia com o assunto pesquisado.
A seguir um trecho das memórias de Candinho que pode ser usado para uma aula ou apenas a título de exemplo aqui:

Distrito Judiciário do Lageado
Foi criado em 1929, e o Cartório Distrital colocado sob o comando do jovem, dinâmico e letrado Aldo Claro de Oliveira. Candinho, com onze anos de idade, foi convidado a trabalhar e a pilotar a grande novidade que chegava ao local junto com essa espécie de independência: a primeira máquina de escrever que se via por ali. Chegava a ser assombrosa aquela engenhoca mecânica. Candinho ficou encantado com a oportunidade de experimentar sua habilidade e inteligência naquele mecanismo misterioso. Catando um milho aqui, outro acolá, ele preenchia, todo orgulhoso, laudas e laudas com aquela tipografia tosca, principalmente cartas para parentes distantes, tanto para demonstrar sua própria desenvoltura na escrita e na habilidade de datilógrafo quanto para autenticar, sem deixar espaço para dúvidas, o fabuloso progresso que então ocorria no Lageado.
Foi por aqueles dias mesmo que um decreto do presidente recém assumido, Getúlio Vargas, determinou que todos os cartórios fizessem, gratuitamente, os registros civis de quantos brasileiros os procurassem. Então começaram a chegar levas de pessoas, principalmente analfabetos, principalmente da zona rural, com listas de seis, oito, dez ou doze filhos; meninos e meninas recém nascidos ou com até poucos meses de vida, e rapazes e moças de dezesseis, dezoito, vinte e dois anos, muitos dos quais não se sabia com certeza o dia, o mês ou até mesmo o ano em que haviam nascido. Também casais que já conviviam há muito tempo e nunca tinham se casado iam até o cartório para regularizar a situação. Candinho tinha a função de fazer a relação dos filhos, arrumar pessoas do próprio patrimônio para assinarem como testemunhas, proceder ao preenchimento dos documentos e, depois de assinado pelas testemunhas e pelo escrivão, entregar aos pais o registro civil daquelas pessoas cujos nomes tinham sido trazidos para esse fim, ou aos felizes casais que, enfim, estavam regularizando sua situação. O governo queria incrementar o alistamento eleitoral. O cartório mantinha algumas testemunhas sempre de prontidão, e estas assinavam em quase todos os casos. Candinho trabalhou muito nesse período, até criar calos nas pontas dos seus dedos indicadores de tanto caçar letrinhas na máquina de datilografia.
Além do cartório, com a criação do Distrito Judiciário veio também a subdelegacia, construída uma cadeia de madeira numa praça do patrimônio e Candido, homem muito conhecido e de boas relações por ali, além de aliado e amigo de primeira hora de Aldo Claro de Oliveira, foi nomeado o primeiro subdelegado.
...
Próximas postagens, a construção do projeto de material didático e os dados complementares deste trabalho.