quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Candinho, uma saga

Grandes Ciclos I
Ubá e Sto. Antonio da Platina
Os pássaros já estavam acordando e principiavam a alegre algazarra naquela madrugada fria de sete de maio, quando Etelvina Batista de Souza, cabocla rija de pouco menos que trinta anos e forte sangue mineiro, desfez a careta, mas continuou bufando, suada e vermelha, e, com a ajuda de Rita, a irmã mais nova, e sob a orientação atenta da vó Inácia, terminou de parir o último de seus filhos que, passadas mais de nove décadas, ainda estaria vivo e lúcido para contar sua história. O rebento era um varão brigador e de saco roxo, fruto de seu ventre com a semente de Candido Bonifácio de Souza, homem de trinta e poucos, braços e caráter fortes, irmão de Zé Coelhinho e filho de José Coelho Villas Boas de Souza e Inácia de Souza, chamado de Candido Coelho por conta do sobrenome familiar que não usava. Os dois eram oriundos do interior das Minas Gerais, Região de Ubá, e moravam então no bairro rural também chamado de Ubá, colônia de mineiros no norte do Paraná, município de Santo Antonio da Platina, próximo à fronteira com o estado de São Paulo. Candido ainda ficava nervoso com o nascimento de seus filhos, se bem que já nem tanto mais: era a oitava vez que isso acontecia, e a dois deles Deus tinha chamado para Si ainda anjinhos. A este filho que então nascia ele daria o seu próprio nome, quase como se fosse a expressão de um desejo inconsciente de perpetuar-se, como que adivinhando que aquele pequeno recém nascido o levaria por tanto tempo, através de épocas e mundos que lhe pareceriam inacreditáveis ainda que vivesse neles... Após o parto, mãe e criança limpas e descansando, ele se viu sozinho durante um longo instante do lado de fora, amanhecendo ainda. O sol, primeiro luz vermelha parece que sangrando o horizonte, depois claro e absoluto, luz dourada atravessando umas nuvenzinhas delicadas e matizando o céu de tons de azul, lilás, rosa, dourado – e então o dia de todas as cores, com a predominância do verde... Candido respirou fundo e olhou para os campos que despertavam, a linha da mata mais adiante, ouviu os ruídos do dia que começava, a passarada, a balbúrdia de seus filhos ali por perto e sorriu: Sentiu que a vida, apesar dos muitos pesares, de vez em quando ainda surpreendia com uns momentos que não tinha nada o que explicar nem reparo nenhum a fazer... Corria o ano da graça de 1918. Na Europa, a primeira guerra mundial comia solta, mais próxima de seu final do que então se poderia imaginar. Nesse dia nascia Candinho.

E vinha chegando, lá das bandas da sua casa, o concunhado Francisco Arantes, marido de Rita, conhecido por ali pelo apelido de Chico Terto, todo alegre, balançando os braços e falando alto:
- Bom dia, compadre Coelho! – E meus parabéns! Que Nossa Senhora da Imaculada Conceição tenha dado uma boa hora para Dona Etelvina. Venha daí um abraço.
- Obrigado compadre – disse Candido enquanto o contraparente aplicava-lhe os tradicionais três tapinhas nas costas -. Comadre Rita foi de grande valia.
- Vamos entrar ali na sua casa – disse Chico Terto mostrando-lhe uma cesta -. Tenho aqui umas coisas para a mãe e para a criança e uma coisa para nós.
Rita estava na cozinha fervendo lençóis e fronhas; Aurora, a filha mais velha sobrevivente, nascida em 1908, escolhia feijão na mesa enquanto o pequeno Edward, caçula destronado, brincava ali por perto no chão de madeira. Daniel e Valdemar, respectivamente com oito e seis anos já estavam em algum lugar quase longe, mas nem tanto, explorando o mundo entre as ruas de café e as roças de milho. Vó Inácia, mãe de Candido, estava no quarto com a nora e o neto. Terto colocou a cesta na mesa e tirou dela panos dobrados e embrulhos, um embornal com ervas, um saco de algodão com um grande pão fresco ainda cheirando muito bem, uma lata de biscoitos sortidos, e, por último, um garrafão de cinco litros, faltando aproximadamente dois terços, de vinho tinto.
- Vamos tomar um copo em comemoração, compadre. Venha você também, Rita, e traga os copos.
- Beber a essa hora da manhã, Chico? Logo eu, que quase nunca bebo em hora nenhuma.
Rita já chegava, sorridente, com os copos. Terto insistiu:
- Vamos, compadre Coelho! Afina o sangue e deixa a cabeça mais leve – Além do que é benção na certa brindar à saúde do recém nascido.
     Rita já tinha enchido os copos e os distribuiu. Candido pegou no seu, aproximou-o do nariz e sentiu o odor forte e gostoso. Ergueram os copos e Terto brindou:
- Ao menino, para que seja trabalhador e honesto.
- Ao meu filho Candinho, para que tenha uma cabeça boa e dê boa semente.
- Ao pequeno, para que tenha uma vida longa e valiosa – concluiu Rita.
Bateram os copos e beberam à saúde de Candinho.

Reintroduzindo...

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Quando os buques de guerra dos navegadores nórdicos, ornados com carrancas de dragão ou serpente marinha, velas quadradas, as fileiras de remos e os escudos redondos protegendo as amuradas, apareciam no horizonte de volta de suas campanhas, a comunidade se mobilizava para preparar o banquete. O Hall era limpo, a grande mesa circular montada, a lareira acesa com boa lenha, o rei vinha vestido com seus melhores trajes e ataviado com todos os emblemas de sua posição, tomava lugar entre as colunas que o distinguiam e dava a ordem para que a festa acontecesse. Eram oferecidos sacrifícios a Thor ou a Odin. Músicos atacavam seus instrumentos, a comida era servida, os homens comiam, bebiam, cantavam e faziam muito barulho. Não sei se havia uma ordem para essas coisas, ou se em todas essas festas todas elas aconteciam, mas havia um momento solene, quando era exigido silêncio e atenção aos comensais, e este era quando o bardo que sempre acompanhava as expedições ia narrar a saga.

Esses eram povos que viviam muito ao norte, num clima inóspito e numa terra de poucos animais e escassos recursos. Essas culturas desenvolveram-se, principalmente, sobre a guerra e a pilhagem. Suas frágeis embarcações atingiram o Mediterrâneo e o norte da África; passaram além da Groenlândia e aportaram onde hoje é a América do Norte, e quem sabe onde mais eles chegaram. A saga era a narrativa heroica, idealizada, desses acontecimentos: os meses no mar, a sangueira da guerra, a crueldade da conquista, a morte por hipotermia, desinteria, tétano, no fio de um machado, na ponta de uma lança, levado pela tempestade; a miséria física e o risco daquela frágil estrutura de madeira ser despedaçada pelos elementos da natureza, tudo transmutado em signos de glória e exaltação. A saga aproximava os homens dos deuses. A ação humana adquiria um significado no teatro cósmico, onde as forças da ordem e do caos (fogo contra gelo) combatiam umas com as outras, e os guerreiros que morriam honrosamente nas batalhas passavam os dias em guerras recreativas e as noites em festins com os deuses e as Valquírias no grande Hall de Asgard. Todos aguardando o advento do final do universo conhecido, quando então se daria a última de todas as batalhas, o Crepúsculo dos Deuses, o Ragnarok...

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Saga. A narrativa heroica de uma jornada, uma campanha ou expedição. Aqui, no nosso caso, de uma vida humana que já dura mais de noventa anos. Candinho nunca foi um guerreiro aos moldes daqueles grandalhões ruivos do norte. Ele sempre foi um sujeito miúdo, cabeça grande, quase frágil (agora, aos noventa e dois, quase transparente...), magrelo na juventude, gorducho entre os quarenta e os sessenta e poucos, magrelo de novo agora velhinho, e sempre de cabeça grande, em muitos sentidos. É uma saga diferente daquelas dos navegadores e guerreiros do norte gelado, acontecida numa terra quente e fértil, ao sul, próxima ao Trópico de Capricórnio, em meio a florestas exuberantes que estavam se acabando pela ação humana e cidades que estavam nascendo das terras férteis, adubadas com muito suor e promessas de progresso.

Norte do Paraná, décadas de 1920 e 30. Do nascimento, em 1918, até a morte de Valdemar, em 1937, o primeiro grande ciclo da vida de nosso heroi/sobrevivente. Candinho nunca participou de guerras, nunca matou ninguém, nunca navegou muito longe, não descobriu terras, não foi rei nem general. Nada de extraordinário, mas tudo de extraordinário. A narrativa heroica da vida de um homem como qualquer outro e não tão longe assim no espaço ou no tempo.

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Quem já esteve passeando por este blog e leu as postagens mais antigas, sabe que um dos principais objetivos desta mídia aqui é funcionar como o laboratório onde será feita a montagem de um material acadêmico para apresentação de Trabalho de Conclusão de Curso em História pela Universidade Estadual de Londrina. Mas o objetivo principal é mesmo prestar honras a um bravo camarada que conheço desde que me entendo por gente e que ainda se encontra por aí neste mundo. O trabalho acadêmico continua, em postagens/capítulos “marginais”, anotações “de pé de página” sobre história e memória, cognição, cultura e representações, os grandes ciclos da história recente do Brasil, do Mundo e do estado do Paraná, principalmente a região denominada de Norte Pioneiro no primeiro grande ciclo da saga, e o Norte Novo depois. Entre Santo Antonio da Platina e Londrina, passando pelo Lageado, depois Cornélio Procópio, Curitiba, Vale da Ribeira e Congonhinhas.

Vamos começar, a partir da próxima postagem, a publicar a Saga de Candinho, em ordem e cronologia.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

22 de Maio de 1937

Candinho: Na época em que morávamos no Lageado o papai era subdelegado nomeado pelo delegado regional de Jacarezinho que era a comarca à qual pertencia o município de Santo Antonio da Platina, e pertencendo ao município de Santo Antonio da Platina o patrimônio e distrito judiciário do Lageado, criado pelo governo de Getúlio Vargas em 1929, que era onde nós morávamos. Era delegado regional, se não me falha a memória, Dr. Alcântara, em Jacarezinho, que era quem supervisionava a delegacia de Santo Antonio da Platina e a subdelegacia do Lageado. Tinha chegado recentemente, oriundo do estado de São Paulo, e sido nomeado delegado de Santo Antonio da Platina, o Osório Silva, que se casou com nossa prima Benedita, sobrinha de meu pai. Como meu pai era altivo e não gostava de receber ordens e o Osório Silva era um tipo mandão, prepotente e autoritário, inclusive com os policiais que o acompanhavam nas diligencias...
... A subdelegacia do Lageado era vinculada à delegacia regional de Jacarezinho, que era a comarca. Quando havia problemas a serem resolvidos referentes à subdelegacia do Lageado, meu pai não procurava o Osório e sim o delegado regional em Jacarezinho, com quem trocava informações sobre os problemas oriundos da...
... Em alguns casos o delegado regional dizia ao meu pai: “é, você pode tratar desse assunto com o delegado de Santo Antonio da Platina”, e meu pai não queria, dado a indisposição já existente entre eles, dar satisfação ao Osório Silva, mesmo ele sendo casado com a nossa prima. O Osório Silva ficou magoado, começou a fazer pressão política e pessoal, e não fazia questão de disfarçar que tinha mesmo uma diferença com o subdelegado, meu pai. Em pouco tempo, dada a divergência, meu pai pediu demissão e deixou o cargo... Não, ele não chegava a ameaçar, mas o que acontece é que com toda a pressão e indisposição... O Osório pressionou bastante o delegado regional de Jacarezinho para que substituísse papai na subdelegacia do Lageado...
... Foi nomeado o Jango como substituto do meu pai, indicado pelo Osório Silva. Em decorrência dessa nomeação é que ele passou a... – não perseguir diretamente meu pai e meus irmãos –... Mas demonstrava mau-humor e má vontade... Até que, na noite de 22 de maio de 1937...


22 DE MAIO DE 1937

Ouviam o noticiário. O rádio estava ligado na Inconfidência, de Minas Gerais. Passavam talvez vinte e poucos minutos das nove da noite de vinte e dois de maio de 1937, e Candinho tinha completado dezenove anos quinze dias antes. Dali a pouco iriam pegar o carreiro de uns seis quilômetros de volta pra casa, no sítio da família, só terminar de ouvir o que estavam falando na rádio... O bar já tinha sido de Cândido, então era tudo familiar: um espaço quadrado de uns dez metros, onde tinha uma sorveteira e algumas prateleiras no fundo. Candinho estava prestando toda sua atenção ao noticiário, mas a partir daqui ele não se lembra mais do que é mesmo que ouviam. Havia pessoas dentro do bar, mas Candinho não se lembra do que aconteceu com os outros. O objetivo era os irmãos, filhos do ex-subdelegado. Pode ser que Candinho estivesse mais perto do fim do balcão, mas a certeza é de que havia um desses baleiros de vidro giratórios bem ao lado de onde estava encostado. Ele não estava distraído, mas, mesmo assim, o movimento o pegou de surpresa. Reconheceu Jango e Elias Carvalho que lideravam os bandidos. Os jagunços pararam, meio passo para dentro, em todas as portas do bar, Jango declarou em alto e bom som que estava ali para desarmar quem quer que estivesse armado e, ato contínuo, começaram a atirar. Os irmãos Daniel e Valdemar estavam ali ao lado, e ele percebeu que Daniel soltava um gemido e levava as duas mãos à barriga enquanto sua cara se contorcia num esgar. Viu que Valdemar saía correndo pela porta da esquerda, e supôs que ele estivesse com o revólver Smith & Wesson calibre 32 que Cândido havia deixado com os irmãos para que se protegessem. Viu que os jagunços penetravam no bar e num instante, como um serelepe, não sabe bem como, estava já do outro lado do balcão enquanto o baleiro estourava com o tiro e as balas doces choviam sobre sua cabeça e pelo chão, misturadas com cacos de vidro. Ficou ali abaixado respirando forte e não viu mais o que aconteceu até que os estampidos cessaram. Candinho só ouvia sua própria respiração ofegante e os gemidos de dor de Daniel que se contorcia no chão, sangrando, baleado no abdome. Arriscou uma olhada para o lado de fora do balcão e não viu nada. Ouviu uns latidos distantes e sentiu a barriga gelada e a nuca dura. Sua cabeça estava clara como se tivesse acendido uma luz dentro dela. Saiu de seu esconderijo e viu Daniel, ferido e sangrando, que se erguia com dificuldade. Foi indo para a porta da esquerda, por onde Valdemar tinha saído, um pé depois do outro, e, de repente, estava na noite, do lado de fora. Viu o corpo do irmão, abatido a seis ou sete passos da porta, caído no chão de costas; abaixou-se e puxou-o pelo braço, pensou que estava dormindo ou desmaiado, chamou-o pelo nome e fez que tentou levantá-lo quando viu, num golpe de vista, dois dos pistoleiros encostados a uma cerca do outro lado da rua. Os pistoleiros também o viram e apontaram suas armas. Então Candinho correu como nunca antes em sua vida, alucinado e desorientado, sem saber para onde ir. Os tiros passavam perto dele e explodiam na poeira à sua frente...
... A Cesarina, irmã do Vicente Lino, que era o padrinho de crisma de Candinho, e dono de uma pensão que ficava alguns metros rua abaixo, estava indo para a cama quando escutou os tiros e a gritaria. Foi até a porta da rua, entreabriu-a e olhou para fora, à espera de que alguma coisa acontecesse. Após mais alguns intermináveis segundos de silêncio, ela escutou mais gritos e tiros, e viu que Candinho descia a rua, correndo feito louco... Candinho viu que a porta da pensão do padrinho estava entreaberta e ouviu chamarem o seu nome lá de dentro. Entrou correndo, encolheu-se num canto e ficou ali até ter certeza de que tinha passado. Foi uma longa noite em claro.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

O lugar


A estrada que vinha desde Santo Antonio da Platina terminava na rua principal do Lageado, onde havia aí umas 50 casas de chão batido que ficavam dos dois lados dessa rua e, entre as casas, a espaços irregulares, abriam-se pequenas transversais que iam dar em picadas no meio do mato ou nas roças onde o povo dali trabalhava. Mais além, quase à beira do ribeirão, erguia-se a igrejinha de ripas de palmito coberta com tabuinhas, bem perto de uma mina de águas muito límpidas e cristalinas que abastecia a maior parte da população do lugarejo. Não era sempre que aparecia um padre para rezar a missa aos domingos – só uma vez ou outra, quando vinha um de Santo Antonio da Platina, quase sempre em ocasiões festivas. Então os católicos dali, tementes a Deus e cuidadosos de suas almas, reuniam-se na capelinha durante a semana para rezar o terço. E ainda em todas as ocasiões que a comunidade tinha que se reunir para decidir qualquer coisa, era lá que acontecia. Mas não demorou muito para o lugar ser elevado a paróquia e chegar um padre morador para colocar as coisas nos eixos.

Depois do Inverno...


Agora, já que acabou o Inverno, voltemos ao que viemos de fato fazer aqui. As primeira ações da Primavera serão a postagem de um trecho que conta a mudança da família de Santo Antônio da Platina para o Patrimônio do Lageado, alguns episódios acontecidos no patrimônio durante os dez anos que a família ficou por lá e o tema principal do TCC, que se refere à morte de Valdemar. Parte deste material já foi publicado em outras postagens, mas é aqui que começamos a localizar os eventos que resultaram na morte de Valdemar. Um pouco de narrativa agora e daqui a pouco voltamos ao trabalho acadêmico...

Mudança para o Lageado

Santo Antonio da Platina era praticamente uma comunidade rural. Todos dependiam, direta ou indiretamente, do trabalho no campo. Produzia-se milho e algodão, feijão e café, criavam-se porcos e galinhas. Cândido, após ter ele próprio trabalhado na roça, ganhando seu sustento e o da sua família como agricultor; tocado a serraria e depois uma carpintaria, estava agora com um pequeno comércio, um armazém de secos e molhados que fornecia mantimentos, ferramentas, tecidos e miudezas, negociando, como se fazia naquela época, na honradez do fio de bigode e nos valores anotados em caderneta, pagos sem juros em 30, 60 ou 90 dias, ou quando os produtos da terra eram comercializados.
Aquele ano de 1928 foi especialmente difícil. No ano anterior uma série de condições desfavoráveis havia comprometido os resultados do trabalho do campo e todos estavam sem dinheiro para acertar suas contas: os porcos foram acometidos de peste e centenas deles tiveram que ser sacrificados; choveu torrencialmente no último período de colheita de algodão e quase toda a safra se perdeu; as espigas de milho não granaram direito e deram uns grãozinhos minúsculos e duros como pedra que até as galinhas rejeitavam, ou então mofaram e apodreceram fechadas nas palhas. E, como se não fosse suficiente, bastaram alguns dias de sol depois da chuvarada e a cidade foi invadida por milhões de mosquitos, que saiam a devorar as pessoas todos os fins de tarde. A cidade amanheceu com malária. Dezenas de homens fortes não puderam se levantar de suas camas e ali ficaram dias, batendo os dentes com a febre terçã (Candinho sabe, mais ou menos, de cinco ou seis mortes pela febre entre bebês e pessoas muito velhas e já doentes). O trabalho nos campos quase parou. A sobrevivência começou a ficar muito difícil naquela situação e o fantasma da fome começou a assombrar aquela gente. Parecia praga bíblica.
A venda de Cândido chegou à beira da falência e alguma coisa precisava ser feita a respeito. Não muito longe dali estava sendo implantado o patrimônio do Lageado, que depois seria Carvalhópolis e, depois ainda, município de Abatiá. O chefe da família tinha ouvido falar bem do lugar. Dizia-se que, ali, a doença dos porcos não havia chegado e os produtos da terra tinham dado bem naquela safra. Várias pessoas e famílias mineiras da região de Ubá que eram suas conhecidas estavam indo para lá. Viajou até o patrimônio e fechou negócio numa grande casa de madeira que tinha um salão de frente onde daria para acomodar muito bem o negócio de secos e molhados, e alguns aposentos de fundos onde poderia instalar toda a família. Ficou decidido que eles mudariam para o Lageado.

Foram necessários vários dias, três carros de bois e cinco carretas de burros para acomodar tudo, a mudança da família e o estoque do armazém. Foi construído um pequeno engradado de madeira para acomodar a gatinha vira-lata que dormia na despensa e servia de mascote para as crianças e, numa manhã mal começada, logo aos primeiros raios de sol, Cândido vistoriou os volumes, ajeitou uma coisa aqui, outra ali, conferiu as amarras das cargas e se o pessoal estava bem instalado, tomou assento ao lado do condutor do primeiro carro e deu a ordem de partida.
Era uma viagem de pouco mais ou menos que 30 quilômetros até a margem do ribeirão Lageado. Fariam uma rápida passagem no bairro de Santa Joana, onde pegariam mais um volume na casa de parentes, a meio caminho do rio das Cinzas, primeira etapa da viagem. A comunidade do Lageado ficava do outro lado do rio que tinha que ser transposto através de uma balsa movida a tração humana num trecho de uns 80 a 100 metros de largura. Chegaram à margem no meio da tarde do primeiro dia, e então começou a complexa operação de travessia: de um em um ou dois em dois, de acordo com suas cargas e para manter o equilíbrio na embarcação tosca, eram embarcados os carros ou carretas com seus respectivos carreiros e um ou dois membros da família, mais os balseiros de braços fortes que puxavam os cabos de aço esticados como varais entre uma e a outra margem do rio e que corriam por roldanas.
Quando chegaram, tudo e todos, enfim, do outro lado, já era noite. Restava fazer alguma coisa ligeira para comer e bivaquear até a madrugada seguinte, para saírem antes do sol nascer.
Foram dois dias de jornada dessa caravana desde Santo Antônio até o Lageado, e eles chegaram no entardecer do segundo dia de viagem. Nem bem pararam os carros, Cândido abriu as portas de seu novo armazém e casa, improvisou um balcão com caixotes e expôs a mercadoria que tinha trazido: tecidos e sal; pó de café e ferragens; calçados e querosene; farinha e agulhas; charque e açúcar; feijão e toucinho; macarrão e lamparinas. A gata foi libertada de seu engradadinho de madeira, estudou um pouco as redondezas e não encontrou sua casa por ali, então sumiu pelo mundo. Passaram a maior parte da noite ajeitando as coisas, ocupando os espaços vazios, limpando, entrando na função madrugada adentro. Certa hora Candinho não viu mais nada porque desabou e foi colocado para dormir numa das camas que Etelvina e Aurora já tinham preparado. Acordou dia claro, com o armazém já em pleno funcionamento. Candinho e Ides saíram para explorar o lugar; foram até a beira do ribeirão, a igrejinha de palmito, encontraram outros garotos, conversaram, se conheceram e perguntaram pela gata. Ninguém a tinha visto.
O patrão abriu cedo seu comércio naquele dia de inauguração, os negócios correram muito bem e ele ficou entusiasmado. Já no primeiro dia Candinho fez alguns pequenos trabalhos no armazém, levando e trazendo uma coisa ou outra de lá para cá e daqui para lá, mas só assumiu a responsabilidade por tarefas mesmo lá pelo terceiro ou quarto dia, quando as condições e caminhos do local passaram a ser melhor conhecidos.
Lá pela metade da segunda semana após a chegada ao Lageado, Candinho e Daniel, o mais novo e o mais velho dos filhos homens, foram a cavalo até Santo Antônio da Platina para encerrar uma coisa ou outra. Foram primeiro direto para a casa de uma tia, onde encontraram a gatinha (ou a gatinha os encontrou), que havia chegado ali de volta mais ou menos uma semana depois da mudança, miando de dar dó, desesperada de fome, ferida e cansada da longa, arriscada e solitária aventura por aqueles ermos selvagens e cheios de perigos. Quantas lutas não teria aquele bichinho enfrentado? Quando a gatinha viu os meninos esfregou-se nas pernas deles e deu grandes mostras de reconhecimento, mas eles nem pensaram em levá-la de volta para o Lageado. Ali ela ficaria, como recompensa por sua esperteza, tenacidade e bravura, senhora do território que conhecia tão bem e para onde tinha conseguido voltar enfrentando um trecho tão perigoso e difícil. Como teria ela atravessado o rio caudaloso na volta?  Nunca mais ninguém tentou tirá-la de casa e ela morreu de velha vários anos depois.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

O Material

O último texto postado contava a história da criação do Distrito Judiciário do Lageado, ocorrido em 1929, e do decreto de Getúlio Vargas que determinava que todos os cartórios fizessem gratuitamente o registro civil de quantos cidadãos brasileiros os procurassem para esse fim. Candinho já aprendera a escrever com o professor Cunha, que aplicava bolos de palmatória nos alunos malcriados, anos antes, em Santo Antonio da Platina, e entrou para trabalhar no cartório com a primeira máquina de escrever que via na vida. Datilografou centenas de registros de nascimento e certidões de casamento, escreveu cartas e mais cartas a parentes distantes para mostrar a eles como se dava bem com aquela impressionante novidade tecnológica e como o distante lugar conhecido como Lageado já fazia parte do mundo moderno.
Na narrativa estão localizados vários elementos que remetem aos grandes ciclos da história do Brasil, e vários elementos de uma história particular. A criação do distrito, o decreto getulista, o cartório, a máquina de escrever, os registros civis, tudo faz parte de uma memória única, ao mesmo tempo histórica e pessoal. A nomeação de Candido como subdelegado começa a indicar para a rixa com o delegado regional Osório Silva, mas este é assunto para o TCC. Aqui é o trabalho de tópicos de contemporânea.
Utilizando a narrativa como exemplo ou introdução à proposta propriamente dita, a ideia é que os alunos pesquisem e tragam para a sala de aula dados de suas memórias pessoais ou familiares, e trabalhem com esses dados construindo representações referenciadas no contexto social e/ou cultural da época e local a que se referem (no caso da narrativa em questão, o Distrito do Lageado nos anos de 1929/30). O que o pai (ou mãe, avô ou avó, bisavô ou bisavó) fazia enquanto a Grande História acontecia? Onde ele estava, onde morava, no que pensava? Qual o significado dessas coisas para mim? O que acontecia nos outros lugares enquanto isso?
O texto que conta sobre a criação do Distrito Judiciário e da Subdelegacia do Lageado e as fotos já postadas neste blog serão utilizados como pontos de partida para os efeitos de construção deste projeto.
As fotos, uma que mostra o povo do Patrimônio reunido para a festa de Santo Antonio no dia 23 de Junho de 1928 e a outra, que mostra quatro dos habitantes do local (um desconhecido, dois irmãos mais velhos e o pai de Candinho), segundo meu pai foram tiradas no mesmo dia e são todo o registro fotográfico de sua infância e do período em que sua família morou no Lageado:

[...] Para ali acorreu um fotógrafo viajante que estava vindo de Santo Antonio da Platina com seu tripé, sua máquina de caixote e sua mala de equipamentos. Montou seu estúdio debaixo de uma árvore que oferecia boa sombra e começou a trabalhar. Candinho tem só duas fotos do Lageado, e garante que foram todas tiradas no mesmo dia – neste dia e pelo fotógrafo itinerante (de quem o nome, até prova em contrário, está irremediavelmente perdido) que chegou com sua equipagem e passou o dia – uma parte do outro também – fotografando tudo o que fosse fotografável por ali. É desse dia a única fotografia conhecida de Candinho na infância. Ele é o terceiro da esquerda para a direita, quase irreconhecível, mas note-se o pano na canela, o chapeuzinho na cabeça, as mãos nos bolsos e a pose meio que atrevida. Tem ainda um rapazote à sua direita que pousa a mão em seu ombro e que Candinho não faz a menor ideia de quem seja (ou era). [...]

Estrutura das atividades:
Análise das fontes (narrativas e imagens) no contexto dos grandes ciclos da história e à luz do que elas revelam em termos de cultura material: a foto que abre este blog, por exemplo, uma das duas que restaram do Lageado, mostra como era, em 1928, o lugar que hoje faz parte do centro de uma cidade do Norte Pioneiro do Paraná, Abatiá. Como era aquela paisagem, como são as construções que aparecem, como se vestem, como se parecem as pessoas. Em outra abordagem do mesmo material, colocar a figura do fotógrafo itinerante naquela época e contexto, a relativa dificuldade de se registrar imagens e a importância de um personagem assim para, por exemplo, propiciar a única foto que se tem notícia de Candinho na infância. Ou depois, com o caso da máquina de escrever, como é, para uma criança do século XXI imaginar que não tão longe daqui no tempo e no espaço a coisa mais parecida que havia com um computador de hoje era a máquina de escrever mecânica. Incentivar os alunos a fazer o papel de pessoas que vivessem naquelas condições.
Realização de uma pesquisa dos estudantes em suas casas sobre itens de suas memórias pessoais ou familiares; objetos, imagens, depoimentos orais, relacionados à época pesquisada. Formação de pequenos grupos por afinidade que farão um trabalho de construção de representações relacionadas com o tempo e o contexto do tema do estudo a partir dos itens de memória que tenham coletado.

Como:
Leitura dos textos e exposição das imagens e discussão aberta sobre eles; pesquisa e apresentação dos resultados desta; formação dos grupos, por afinidade temática ou outras; construção e apresentação das representações (cartazes, Histórias em Quadrinhos, trabalhos escritos, colagens, representações teatrais, Hip Hop, qualquer linguagem).
O professor será aquele que, primeiro apresentará o contexto da história dos manuais, depois a proposta da história particularizada, e será responsável por toda a dinâmica da pesquisa, da formação e orientação dos grupos, além de facilitador no sentido de que fará as necessárias pontes entre a história particularizada por um recorte ou item de memória pessoal e familiar e a história dos grandes eventos. Funcionará, nesta fase, como uma espécie de coordenador e consultor de roteiro das montagens e apresentações...

Ainda está incompleto. Como já foi escrito em alguma das postagens anteriores, isto aqui é um trabalho em construção e as últimas postagens foram feitas com o objetivo de cumprir a tarefa de avaliação da disciplina de Tópicos de Ensino em História Contemporânea, primeiro semestre do ano letivo de 2010. O trabalho não seguiu rigorosamente o roteiro proposto, mas creio que conseguiu dizer ao que veio, embora esteja mais parecido com um projeto de oficina. Por outro lado, o processo de acabamento desses textos e montagem do blog tem sido de enorme valia para a formatação de meu projeto de TCC. Este trabalho está entregue aqui, mas o blog continua.

Aqui fecha o parênteses)

Referências Bibliográficas

Livro didático:
PERUZIN TUMA, Magda Madalena: Coleção Viver é Descobrir... História do Paraná – Editora FTD, 1ª edição – SP, 2008

Memória, biografia, testemunho:
BOURDIEU, Pierre. L’Illusion Biographique. Actes de la Recherche en Sciences Sociales (62/63): 69 – 72, juin 1986

FRANK, Jean & LANDIERA FERNANDEZ, J.: Rememoração, Subjetividade e as Bases neurais da Memória Autobiográfica – Psicologia Clínica, vol.18, nº. 01, pág. 35 – 47, Rio de Janeiro, 2006

GAUER, G. & GOMES, W.G.: A experiência de recordar em estudos da memória autobiográfica: aspectos fenomenais e cognitivos. Memorandum, 11, 102-112.- http://www.fafich.ufmg.br/~memorandum/a11/gauergomes01.pdf 102 Memorandum 11, out/2006 – Belo Horizonte: UFMG; Ribeirão Preto: USP

KOLLERITZ, Fernando: Testemunho, Juízo Político e História – Revista Brasileira de História. São Paulo, v. 24, nº. 48, p. 73-100 – 2004

Conjuntura:
MÜLLER, Nice Lecocq: CONTRIBUIÇÃO AO ESTUDO DO NORTE DO PARANÁ - revista Geografia, Londrina, v. 10, n. 1, p. 89-118, jan./jun. 2001

RAGGIO, Nadia Zaiczuk: Norte Novo do Paraná: Transformações no Campo e a Questão do Acesso à Terra – dissertação de mestrado em sociologia – Unicamp, Campinas, 1985

CANCIAN, Nadir Aparecida: Cafeicultura Paranaense 1900/1970 – Grafipar, Curitiba, 1981

Fonte Primária: Depoimentos de Candido Batista de Souza, meu pai Candinho, narrados por ele, gravados e transcritos por mim, trechos de livro em preparação. Memória, história oral.