diário de bordo - parte1
Vista do morro onde está localizada a escultura do Cristo em Cornélio Procópio
Coisa de fotógrafo amador: o Cristo que domina a cidade de Cornélio,
mal enquadrado e fotografado contra a luz
Sábado, 18 de junho de 2011 completei 55 anos. Não tem sido uma vida fácil até aqui. Parece que fui fabricado com algum grave defeito que ainda não consegui delimitar ou definir, mas que já vejo de frente como uma coisa sem forma, unidade formada de partes desiguais que perfazem um todo que não parece fazer sentido. Talvez não seja importante – ou até seja impossível – dar nome a essa coisa, mas eu sou um ser de linguagem e sempre tento dizer... Mas deixa o defeito de fabricação e toda essa conversa sobre ele para depois ou para nunca, e que essa observação sirva assim como uma primeira introdução ao verdadeiro tema deste texto: nomear é dar forma ao mundo, colocar um solo sob os pés, definir e localizar – mas também é encarcerar a experiência, a coisa em si, talvez inominável, talvez além de toda a linguagem, dentro de uma construção, uma jaula de signos compreensíveis e confortáveis. Por outro lado, somos humanos, e, como tais, nos distinguimos pela memória e pela linguagem que usamos para registrá-la, para nos referirmos a todas as outras coisas e para comunicar entre nós, que compartilhamos dessa linguagem, tudo o que entre nós for comunicável.
Memorial
Dia 1º de janeiro de 2011 fez onze anos desde que, num dia de Ano Novo na casa de Tia Clara, eu comecei a conversar com meu pai Candinho. Esta é a data em que, de uma forma assim meio vaga, resolvi escrever um livro de sua história e com suas histórias. Meu pai completou 93 anos no último 7 de maio. No dia 12 de junho ele viajou a Londrina para tratar de negócios importantes e realizar uma jornada de sentimento e memória pelas suas origens. Cornélio Procópio, Abatiá – o ex-patrimônio do Lageado, onde Valdemar tombou morto na noite de 22 de maio de 1937 – e, finalmente, Santo Antonio da Platina, onde tudo começou em 1918 quando Candinho nasceu, ou ainda 20 anos antes, quando José Coelho (Coelho de Souza ou Souza Coelho) Vilas Boas, oriundo das Minas Gerais, chegou ao bairro rural do Ubá, pertencente ao município de Santo Antonio. Eu o acompanhei a cada momento, fiel escudeiro do velho senhor. Na manhã da sexta-feira, 17 de junho, ele e Dirceu partiram de Santo Antonio da Platina com destino a Curitiba, e eu fiquei por mais algumas horas, até a saída de meu ônibus para Londrina.
Em nome do Pai, do Filho...
Algum momento da quinta-feira, dia 9 de junho, eu fiquei sozinho e em silêncio e comecei a falar com Deus. Tentei ser o máximo sincero, me aproximar como se fosse de um camarada com quem eu tivesse uma coisa importante para resolver: comecei dizendo que por muito pouco é que eu ainda acredito Nele, mas que O acho indiferente ao nosso destino, pobres mortais afogados no vale de lágrimas desta existência. A vida da carne é muito difícil, o tempo todo tudo está por um fio, o custo é muito alto e a recompensa tem sido mínima. Tudo está sujeito à aniquilação, o mundo é uma estrutura frágil e sob constante ameaça, a humanidade é como uma experiência que não deu muito certo, parecemos mais uma espécie de câncer que atacou a pele e as entranhas deste lindo planeta. Eu estou deixando de acreditar que qualquer coisa valha a pena. Pode ser uma descomunal arrogância da minha parte, acho que é mesmo, mas eu vou exigir uma prova Sua, Camarada; seja como for, venha como vier, eu peço um presente de aniversário: que Você me faça acreditar que ainda vale o esforço, porque eu estou cada vez mais desiludido, desacreditado e de saco cheio, achando muito sem graça a maior parte disso tudo, e nada podendo fazer a respeito, eu sozinho e minúsculo, menos que microscópico. Será que tudo se resume a sobreviver enquanto não chega o fim?...
... sei lá se de minha conversa com o Senhor do Universo ou qualquer outro fator estruturalista, materialista ou determinista – na verdade isso tem pouca importância – dia seguinte recebi a notícia que meu pai chegaria no domingo à tarde, e eu dispunha de dois dias pra me articular para sua vinda, e aconteceu tal qual o anunciado: ele chegou, conduzido pelo Dirceu, lá pelas 16h e alguns minutos de 12 de junho; nos instalamos e isso foi o começo da aventura: cinco noites dormindo com Candinho no mesmo quarto, os dias que se seguiam a essas noites andando juntos por onde ele queria e precisava andar, até a manhã da sexta-feira, dia 17, quando nos despedimos em Santo Antonio da Platina. Tive nisso tudo muita honra e muito gosto, e mais ainda: foi uma das maiores experiências de minha vida, uma daquelas que até poderia ou pode ser contada, convertida numa história com sequência e significado (é que vai acontecer, e o que está sendo dito aqui), mas cujo alcance ultrapassa os limites da minha linguagem consciente, do meu entendimento e da compreensão que tenho da vida. Foi uma viagem reveladora e surpreendente por um recôndito de minha memória, da memória de Candinho, da nossa memória compartilhada. Vi, fotografei e anotei os lugares, os personagens e alguns novos dados que surgiram de depoimentos de Candinho e de outrem e da presença física minha e de meu pai nos lugares de suas origens e de alguns momentos fundamentais de sua vida. Em Santo Antonio da Platina tentei localizar as coisas no espaço e imaginar aquela cidade de 2011 nos anos 20 do século passado, naquele mesmo vale dominado por aquele mesmo morro, mais ou menos com aqueles mesmos quarteirões traçados sobre aquelas mesmas colinas suaves em torno da Igreja Matriz no centro. Foi revivido, por meu pai e por mim,o Arquétipo do Pai e do Filho, o mito do retorno às origens, a viagem para dentro de Si Mesmo. Houve um encontro surpreendente no centro de Santo Antonio da Platina que aqui apenas cito e é assunto para uma próxima postagem.
Mas vale dizer que, nas horas que ainda permaneci na cidade depois que Dirceu e Candinho tomaram a estrada para a capital e eu me vi passeando com a minha amiga Bia nos campos e colinas próximos à área urbana, bateu uma percepção do infinito, da fita dando a volta sobre si mesma: aquele mesmo tempo que ficara no passado recomeçando no presente: Ouroboros, a serpente dos alquimistas que morde a própria cauda, uma volta completa da roda do tempo circular. Eu estava na terra de meus ancestrais (quase) míticos, pisando os mesmos lugares que eles poderiam ter pisado, depois de uma jornada ao lado do senhor daquela memória, depois de uma série de acontecimentos sem nenhuma conexão aparente que se conectaram num todo ali presente, um momento luminoso de revelação existencial, uma resposta de Deus, o meu presente de aniversário, muito maior e mais significativo do que eu poderia sonhar. Pode parecer um estrondoso exagero melodramático, que seja então, mas ali se consolidou o destino e eu toquei no meu propósito de vida. Eis que o começo nunca terminou de acontecer e ali começava de novo.
Candinho é um magnífico camarada, um extraordinário parceiro de viagem, o depositário fiel de uma memória de valor inestimável, é tudo o que se possa dizer de bom dele. É um velhinho frágil e preocupado – preocupa-se com tudo e com todos, comigo também (eu, o filho do meio e alternativo que ainda não se acertou na vida e já está ficando velho), e eu com ele com toda a certeza. Tudo começou em Santo Antonio da Platina em 1898, vinte anos antes de Candinho nascer na manhãzinha de 7 de maio de 1918, mas ainda antes, na região de Ubá, em Minas Gerais, onde nascera Cândido Bonifácio de Souza, o Cândido Coelho (segundo Candinho) em 1884... Tudo começava de novo naquela manhã radiante de 16 de junho de 2011.
Memorial
Dia 1º de janeiro de 2011 fez onze anos desde que, num dia de Ano Novo na casa de Tia Clara, eu comecei a conversar com meu pai Candinho. Esta é a data em que, de uma forma assim meio vaga, resolvi escrever um livro de sua história e com suas histórias. Meu pai completou 93 anos no último 7 de maio. No dia 12 de junho ele viajou a Londrina para tratar de negócios importantes e realizar uma jornada de sentimento e memória pelas suas origens. Cornélio Procópio, Abatiá – o ex-patrimônio do Lageado, onde Valdemar tombou morto na noite de 22 de maio de 1937 – e, finalmente, Santo Antonio da Platina, onde tudo começou em 1918 quando Candinho nasceu, ou ainda 20 anos antes, quando José Coelho (Coelho de Souza ou Souza Coelho) Vilas Boas, oriundo das Minas Gerais, chegou ao bairro rural do Ubá, pertencente ao município de Santo Antonio. Eu o acompanhei a cada momento, fiel escudeiro do velho senhor. Na manhã da sexta-feira, 17 de junho, ele e Dirceu partiram de Santo Antonio da Platina com destino a Curitiba, e eu fiquei por mais algumas horas, até a saída de meu ônibus para Londrina.
Em nome do Pai, do Filho...
Algum momento da quinta-feira, dia 9 de junho, eu fiquei sozinho e em silêncio e comecei a falar com Deus. Tentei ser o máximo sincero, me aproximar como se fosse de um camarada com quem eu tivesse uma coisa importante para resolver: comecei dizendo que por muito pouco é que eu ainda acredito Nele, mas que O acho indiferente ao nosso destino, pobres mortais afogados no vale de lágrimas desta existência. A vida da carne é muito difícil, o tempo todo tudo está por um fio, o custo é muito alto e a recompensa tem sido mínima. Tudo está sujeito à aniquilação, o mundo é uma estrutura frágil e sob constante ameaça, a humanidade é como uma experiência que não deu muito certo, parecemos mais uma espécie de câncer que atacou a pele e as entranhas deste lindo planeta. Eu estou deixando de acreditar que qualquer coisa valha a pena. Pode ser uma descomunal arrogância da minha parte, acho que é mesmo, mas eu vou exigir uma prova Sua, Camarada; seja como for, venha como vier, eu peço um presente de aniversário: que Você me faça acreditar que ainda vale o esforço, porque eu estou cada vez mais desiludido, desacreditado e de saco cheio, achando muito sem graça a maior parte disso tudo, e nada podendo fazer a respeito, eu sozinho e minúsculo, menos que microscópico. Será que tudo se resume a sobreviver enquanto não chega o fim?...
... sei lá se de minha conversa com o Senhor do Universo ou qualquer outro fator estruturalista, materialista ou determinista – na verdade isso tem pouca importância – dia seguinte recebi a notícia que meu pai chegaria no domingo à tarde, e eu dispunha de dois dias pra me articular para sua vinda, e aconteceu tal qual o anunciado: ele chegou, conduzido pelo Dirceu, lá pelas 16h e alguns minutos de 12 de junho; nos instalamos e isso foi o começo da aventura: cinco noites dormindo com Candinho no mesmo quarto, os dias que se seguiam a essas noites andando juntos por onde ele queria e precisava andar, até a manhã da sexta-feira, dia 17, quando nos despedimos em Santo Antonio da Platina. Tive nisso tudo muita honra e muito gosto, e mais ainda: foi uma das maiores experiências de minha vida, uma daquelas que até poderia ou pode ser contada, convertida numa história com sequência e significado (é que vai acontecer, e o que está sendo dito aqui), mas cujo alcance ultrapassa os limites da minha linguagem consciente, do meu entendimento e da compreensão que tenho da vida. Foi uma viagem reveladora e surpreendente por um recôndito de minha memória, da memória de Candinho, da nossa memória compartilhada. Vi, fotografei e anotei os lugares, os personagens e alguns novos dados que surgiram de depoimentos de Candinho e de outrem e da presença física minha e de meu pai nos lugares de suas origens e de alguns momentos fundamentais de sua vida. Em Santo Antonio da Platina tentei localizar as coisas no espaço e imaginar aquela cidade de 2011 nos anos 20 do século passado, naquele mesmo vale dominado por aquele mesmo morro, mais ou menos com aqueles mesmos quarteirões traçados sobre aquelas mesmas colinas suaves em torno da Igreja Matriz no centro. Foi revivido, por meu pai e por mim,o Arquétipo do Pai e do Filho, o mito do retorno às origens, a viagem para dentro de Si Mesmo. Houve um encontro surpreendente no centro de Santo Antonio da Platina que aqui apenas cito e é assunto para uma próxima postagem.
Mas vale dizer que, nas horas que ainda permaneci na cidade depois que Dirceu e Candinho tomaram a estrada para a capital e eu me vi passeando com a minha amiga Bia nos campos e colinas próximos à área urbana, bateu uma percepção do infinito, da fita dando a volta sobre si mesma: aquele mesmo tempo que ficara no passado recomeçando no presente: Ouroboros, a serpente dos alquimistas que morde a própria cauda, uma volta completa da roda do tempo circular. Eu estava na terra de meus ancestrais (quase) míticos, pisando os mesmos lugares que eles poderiam ter pisado, depois de uma jornada ao lado do senhor daquela memória, depois de uma série de acontecimentos sem nenhuma conexão aparente que se conectaram num todo ali presente, um momento luminoso de revelação existencial, uma resposta de Deus, o meu presente de aniversário, muito maior e mais significativo do que eu poderia sonhar. Pode parecer um estrondoso exagero melodramático, que seja então, mas ali se consolidou o destino e eu toquei no meu propósito de vida. Eis que o começo nunca terminou de acontecer e ali começava de novo.
Candinho é um magnífico camarada, um extraordinário parceiro de viagem, o depositário fiel de uma memória de valor inestimável, é tudo o que se possa dizer de bom dele. É um velhinho frágil e preocupado – preocupa-se com tudo e com todos, comigo também (eu, o filho do meio e alternativo que ainda não se acertou na vida e já está ficando velho), e eu com ele com toda a certeza. Tudo começou em Santo Antonio da Platina em 1898, vinte anos antes de Candinho nascer na manhãzinha de 7 de maio de 1918, mas ainda antes, na região de Ubá, em Minas Gerais, onde nascera Cândido Bonifácio de Souza, o Cândido Coelho (segundo Candinho) em 1884... Tudo começava de novo naquela manhã radiante de 16 de junho de 2011.
Candinho na praça do Cristo. Ao seu lado o Dirceu, valente motorista e bravo camarada.
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