Candido Batista de Souza, até hoje chamado de Candinho, nasceu na manhãzinha do dia 7 de Maio de 1918, poucos meses antes do final da I Guerra Mundial. O lugar era um bairro rural de Santo Antonio da Platina chamado de Ubá, formado por imigrantes oriundos do estado de Minas Gerais, da região da cidade de mesmo nome. Candinho é o caçula de cinco irmãos sobreviventes (pela ordem: Aurora, a primogênita, Daniel, Valdemar, Edward – Edevarde ou Ides – e Candinho), filhos de Candido Bonifácio de Souza e Etelvina Batista de Souza. Ainda fazia parte da família o Véio Dito, um ex-escravo que, pelo que se pode deduzir, não viu nenhuma diferença entre as condições de antes e depois da Lei Áurea e continuou com a família com a qual sua própria família já convivia havia muitas gerações. Candido e Etelvina ainda tiveram outros filhos: pelo menos dois meninos entre Edward e Candinho e uma menina quando Candinho contava com, aproximadamente, dois anos – a pequena Eurodites, que não viveu mais que algumas semanas, sendo enterrada pelo Véio Dito num canto distante da propriedade que possuíam no Ubá.
No sítio eles plantavam cana, criavam porcos, galinhas e uns bois de tiro que serviam, principalmente, para transportar a cana cortada desde o canavial até o engenho vertical – tracionado pelos mesmos bois – que espremia a garapa em cochos de madeira que eram então levados ao barracão anexo e derramados em grandes tachos de cobre ajeitados sobre fogueiras alimentadas a muita lenha seca, e ficava horas apurando até virar rapadura, o principal produto do sítio, que saía dali em tijolos de até 1 kg de peso embrulhados dois a dois em palhas de milho e empilhados sobre os carros de boi até as cidades de Jacarezinho e Santo Antonio da Platina, onde era então comercializada.
Um dia, em 1923, quando Candinho estava com 5 anos, o sítio do Ubá foi vendido e eles se mudaram para Santo Antonio da Platina, onde o patriarca Candido tinha entrado com algum dinheiro, mais os bois de tiro e seu espírito empreendedor, como sócio numa serraria com um tal Sr. Fernandes (de quem Candinho não sabe mais nada), que havia investido a maior parte do capital enquanto Candido ficava encarregado do trabalho de localizar as árvores no meio da mata, providenciar para que fossem derrubadas, serradas no local em pedaços de tamanho adequado para o transporte, embarcadas nas carretas e transportadas até a serraria, onde a madeira era desdobrada em tábuas e outras peças – dependendo da qualidade da madeira e o fim para o qual se destinavam – que seriam, posteriormente, utilizadas nas construções da região. Para realizar esse trabalho Candido contava com o Véio Dito, seus carros e suas juntas de bois e com alguns homens contratados, fortes e hábeis no uso de machados e serras.
Foram morar num anexo da própria serraria adaptado para servir como casa da família. A sociedade se fez, principalmente, para que fosse comprado e instalado na serraria, um enorme vapor de muitas toneladas que movimentaria todo o complexo a partir de então. Foi enquanto moravam ali que Candinho foi à escola pela primeira vez na vida, e onde o Véio Dito, numa certa manhã de 1925 apenas não acordou mais. Foi por esses mesmos dias que, do vapor da serraria foi puxado, pela primeira vez na cidadezinha, um fio que acendeu algumas lâmpadas incandescentes em logradouros públicos e numas poucas residências, fato que, segundo Candinho, a história jamais registrou.
Em 1925 Candido vendeu sua parte no negócio ao seu sócio Fernandes e montou um pequeno armazém de secos, molhados, ferragens, tecidos, enlatados e quase tudo o que existia para ser comercializado naquelas época e região. Foi morar diante da praça que tinha a delegacia construída no meio, vizinho de cerca com o lendário (ao menos ali e naqueles dias) pistoleiro Diogo Apolinário Correia. Ficaram nessa casa, no centro de Santo Antonio da Platina, até que se mudaram para o Lageado, três anos depois. Ali conheceram o cinema mudo, onde o alfaiate da cidade tocava violino durante as exibições dos filmes, muitas vezes acompanhado por um clarinetista da banda Lyra Platinense; ali Candinho aprendeu o que é um eclipse quando, numa noite de lua cheia, os moradores locais saíram às ruas atirando para cima, estourando fogos e fazendo a maior barulheira para espantar o monstro que estava devorando o satélite; viu, em frente a sua casa, a movimentação de umas tropas de molambos que estavam engajadas na revolução dos tenentes e, na casa paroquial, a umas duas quadras de distância, quando o legista de Jacarezinho abriu o peito do sargento Jorge, morto na noite anterior e, depois de mexer um pouco dentro do tórax do defunto exibiu, para as dezenas de pessoas que se aglomeravam em torno da mesa, o coração do homem pendendo de seu dedo mindinho enfiado no buraco da bala certeira do assassino. Lá ele viu o primeiro automóvel de toda sua vida, e soube que a São Paulo/Paraná Railway havia chegado até bem perto, onde foi construída uma estação chamada Nova Platina, a partir de onde a ferrovia se bifurcava, lançando um ramal para o sul, até a região dos campos gerais, e outro ramal para oeste, entrando pelo norte do Paraná onde disseminaria cidades nos anos seguintes.
Em 1928 eles se mudaram para o Patrimônio do Lageado – depois município de Carvalhópolis e, depois ainda, Abatiá – pertencente a Santo Antonio da Platina, onde ficariam até agosto de 1937.
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