quarta-feira, 9 de junho de 2010

introdução

Era 1º de Janeiro de 2000. Depois do farto almoço, sorvete e cafezinho na casa de uma tia, irmã de minha mãe, nos sentamos na varanda, eu e meu pai, Candinho, e começamos a prosear. Ele já tinha 81 anos de idade, tinha vivido a maior parte do século XX, sofrido um AVC que tinha deixado todo mundo assustado alguns anos antes, e passado por duas cirurgias delicadas para desobstruir as artérias carótidas dos dois lados do pescoço – sem o que o risco de um novo derrame seria quase inevitável – e sobrevivido a tudo quase sem sequelas (parece que foi só depois disso tudo que ele começou a envelhecer de verdade). A conversa principiou sobre aquele ano cheio de zeros que estava então começando (era o primeiro do terceiro milênio ou o último do segundo?), sobre o ditado profético que era voz corrente nas antigas (a dois mil chegará, de dois mil não passará), como se imaginava que seria o mundo no novo século, no novo milênio que ia começar... Lá pelas tantas, Candinho começou a falar de sua infância no bairro do Ubá e em Santo Antonio da Platina, a adolescência e juventude no Patrimônio do Lageado, da morte de seu irmão Valdemar e da consequente mudança da família remanescente para Cornélio Procópio. Enquanto ele desfiava suas memórias, uma idéia que já existia como semente dentro de mim desde anos antes começou a tomar forma: eu iria escrever um livro contando a história de meu pai.
Começamos por aqueles dias mesmo e, de lá para cá, lá se vão 10 anos e alguns meses, mais de 20 horas de depoimentos gravados – parte em minicassete e parte em WAV – e pouco mais ou menos que 200 laudas de texto em diferentes graus de acabamento. Neste ano de 2010, quando Candinho completou 92 anos de idade deve ser a reta final do livro, pois meu pai que, de acordo com suas próprias palavras, já está no lucro, não vai rejuvenescer depois de nonagenário, e eu quero que ele veja, toque e leia a história de sua vida contada por seu filho do meio.

O texto que foi escrito até agora, com o objetivo de compor a biografia de meu pai, não se preocupou primordialmente com a exatidão histórica, mas sim com a manutenção do sabor e do colorido únicos de suas narrativas e casos. Mas não me dei uma liberdade total para escrever – ocasionalmente construí algum diálogo, uma descrição psicológica, juntei duas ou mais versões de alguns casos numa só, escolhi entre dois ou três nomes de personagens sobre os quais Candinho, tantas décadas depois, já não tem certeza absoluta, dramatizei uma ou outra passagem com vistas a um efeito literário, mas não “criei” coisa nenhuma, não retirei ou acrescentei nada que não fosse, no mínimo, plausível ou até mesmo provável – e o importante, no que diz respeito à construção de um trabalho de história, é que, no que se refere aos ciclos e fatos mais amplos onde a história de Candinho e sua família se inserem, não há nenhuma invenção em relação ao que a História conta, e tudo combina quase com exatidão. O estilo é apenas forma, licença literária, enfeite, carne – a espinha dorsal é a saga de meu pai e de sua família num período determinado, entre 1928, quando eles se mudaram de Santo Antonio da Platina para o Patrimônio do Lageado (depois município de Carvalhópolis e, depois ainda, Abatiá) e 1937 quando, após a morte de meu tio Valdemar, o que ainda havia restado da família mudou-se do Lageado para o distrito do km 125 da ferrovia que, ano seguinte seria elevado ao grau de município e batizado de Cornélio Procópio.
Este trabalho partirá de um ponto divisor de águas na história da família – a morte, numa emboscada descrita por Candinho, de meu tio Valdemar, no Patrimônio do Lageado, na noite de 22 de Maio de 1937. Sem colocar em dúvida a versão apresentada por meu pai, pode ser que as coisas não tenham acontecido exatamente da forma que ele as descreveu, até porque a memória de um indivíduo, por melhor que seja, é falha e traiçoeira, e pode acrescentar ou retirar dados relevantes a um determinado evento – mas isto não é significativo para o fim a que este trabalho se propõe, que é o de investigar as relações de poder que culminaram nos fatos ocorridos na data citada. Serão utilizados alguns trechos do livro em preparação, referenciados por estudos de diversas disciplinas das ciências humanas (história, geografia, sociologia) sobre a expansão cafeeira, a estrada de ferro SP/PR Railway, que estava entrando pelo norte do Paraná na mesma época abordada por este recorte, as alternativas econômicas que se apresentavam para os que não eram grandes produtores, as relações de poder e influência naquele meio rural que estava nos primórdios de sua urbanização.

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