Acertar o hotel, café da manhã, despedidas e toca pra estrada: primeira parada Abatiá, que nas narrativas de Candinho ainda era o Patrimônio (depois Distrito Judiciário) do Lageado, depois Carvalhópolis, Dr. Coriolano de Lima e, finalmente, passou a ostentar o nome que leva até hoje. Em 1937 essa seria uma viagem de, talvez, dois dias – hoje, pela estrada asfaltada e pesadamente pedagiada (aliás, alguém está lucrando absurdamente em troca de serviço quase nenhum – o pedágio de Jataizinho é praticamente uma fábrica de grana e a estrada não está tão boa assim), sem correr muito, levou pouco mais de uma hora, quem sabe hora e meia. Entre Londrina e Cornélio Procópio é quase um pulo pela BR 369. Passando Cornélio tem a entrada para Santa Mariana, logo depois Bandeirantes e, deixando então o caminho principal e atravessando a cidade, se pega uma estrada que vai acabar chegando em Abatiá.
Na estrada
Aqui é um ribeirão bem na entrada de Abatiá - mais ou menos no mesmo lugar que nos anos de 1920
O posto de gasolina na entrada da cidade
Na entrada da cidadezinha uma parada para tirar fotos e pegar informações num posto de gasolina. Apesar de terem se passado mais de setenta anos desde que Candinho saiu de lá, de haver em Abatiá computadores conectados na internet e serviço de TV por assinatura, a cidade não deve ter crescido quase nada. Talvez seja do tamanho de um bairro (e não dos maiores) de uma cidade como Londrina. De qualquer lugar onde se esteja o final do perímetro urbano pode ser avistado logo ali, a alguns passos de distância. Chegamos ao primeiro destino da viagem, a casa de um primo em segundo grau de meu pai, o Adércio Toledo Bueno, filho da Cesarina Lino, que foi quem abrigou Candinho na noite em que mataram Valdemar. Adércio é uma figuraça: um camarada grande e forte, que fala alto e rápido e parece que se criou acostumado a mandar. Ele tinha três anos quando tudo aconteceu, o que quer dizer que é dezesseis anos mais jovem que Candinho. È proprietário de alguns quarteirões em Abatiá e mora numa das melhores casas do lugar. Recebeu-nos com grandes demonstrações de efusividade, ofereceu-nos refrigerante, cerveja e “o melhor salgado de Abatiá” que saiu para buscar numa lanchonete ali perto (mas, também, tudo ali é perto e, sinceramente, o salgado não é tão bom assim...).
Adércio Toledo Bueno
Durante algum tempo o trio virou um quarteto: Dirceu caladinho, discreto como sempre, Candinho e Adércio desfilando nomes, eventos, lembranças de fatos e pessoas que ficaram num passado já quase distante, e eu ali assistindo, anotando, fotografando e interferindo o menos possível. Adércio acrescentou alguns novos dados sobre personagens e ocorrências e contou sobre a noite de 22 de maio de 1937 uma versão levemente diferente daquela contada por meu pai. Segundo ele, sua mãe foi buscar o jovem e apavorado Candinho perto do corpo do irmão a uns 30 metros rua acima (rua é maneira de dizer: embora hoje existam de fato ruas asfaltadas e bem demarcadas no local, de acordo com Candinho em 1937 não era bem assim). Candinho também sempre fala de seu pai com um respeito fervoroso, como um sujeito rude e bravo, mas curioso e inteligente – e, no meio da conversa, quando se referia a outro personagem que não me lembro qual, Adércio se dirigiu a mim dizendo que: “- era que nem seu avô – um ignorante”. Ele também contou que o subdelegado Cândido usava três armas: além da carabina Winchester e do revólver Smith&Wesson que aparecem já em partes da narrativa de meu pai, meu avô usaria também uma bengala que aparece num dos causos que ele contou. A história é mais ou menos como vem a seguir:
No Patrimônio do Lageado, início da década de 1930, existia um cachaceiro que, todos os dias, ao retornar chumbado para casa, surrava sua mulher. Ao tomar conhecimento disso, o subdelegado ficou de tocaia perto de onde o sujeito morava por volta da hora que ele costumava voltar, começo da noite. No que começou a barulheira da surra, Cândido invadiu a casa do cara e desceu-lhe a bengala – depois o arrastou pra fora, moido de pancada, e o amarrou numa árvore. A história para por aí, mas, a partir disso, já é possível entender um personagem um tanto mais complexo do que o pai idealizado descrito por Candinho. Ao que se saiba o subdelegado nunca matou ninguém nem castigou violentamente um filho seu, mas, juntando a descrição feita por Candinho de um caboclo rude porém nobre, mais a narrativa de Adércio, parece óbvio que para se fazer respeitar como autoridade naquela época e naquele lugar, era preciso agir com dureza.
Uma outra história do Adércio dá conta da ocasião em que Edward, depois de meses foragido por ter justiçado o assassino de seu irmão numa noite de carnaval no bar que ficava diante do Clube Platinense, finalmente se entregou. Nas palavras de Adércio a primeira declaração de Edward teria sido que “- eu tinha vontade que ele aparecesse de novo pra eu matar ele de novo”.
Após um passeio pelos lugares onde tudo se deu e mais algumas fotos, nos despedimos de Adércio e fomos pra estrada. Próxima parada, Santo Antonio da Platina, uns 30 km dali.
A gente chega a Santo Antonio da Platina por cima. A cidade fica numa região de serra baixa, num vale com colinas mais baixas ainda e é dominada por um morro largo. Diferente da região de Londrina, fortemente urbanizada e industrializada, ali em torno da cidade estendem-se campos, encostas suaves, rios com lageados e corredeiras, estradas de terra arenosa e horizontes amplos, além de estruturas e construções da idade do Norte do Paraná. Mas isto tudo eu soube e/ou vi depois. Meus óculos de sol tinham ficado em casa na terça-feira, quando fui encher os potes de comida e água dos gatos, esse dia já era a quinta, o tempo estava aberto e o sol brilhante. Foi quase uma overdose de luz durante o resto deste dia e parte do seguinte, até retornar a Londrina e encontrar meus óculos. Uma semana depois ainda estou um pouco deslumbrado...