Em Santo Antonio da Platina, foram morar numa parte do próprio barracão da serraria, onde tinham sido erguidas paredes divisórias e o espaço transformado numa casa com uma sala pequena, cozinha e dois quartos com camas: um maior, do casal, e outro menor, da primogênita Aurora. De manhãzinha, depois das noites de frio, quando os meninos estendiam um lençol sobre o algodão guardado na tulha pegada à casa e se aninhavam nele meio enroscados uns nos outros e cobertos com seus cobertores, quentinhos e confortáveis, eles, ainda meio sonados, iam pegar umas canas que havia para sustento dos bois na propriedade e assavam as varas em fogueiras feitas com os cavacos e gravetos que sobravam da serraria, até que as cascas torravam e estouravam. Depois descascavam e chupavam os grandes gomos quentes e doces.
Candinho lava os pés sozinho
Uma noite, saíram Cândido, Etelvina e Aurora, e o caçula Candinho ficou só com os irmãos homens. As horas corriam e os mais velhos não retornavam. O pequeno então empurrou uma cadeira até o barril cheio de água do poço, trepou nela com a caneca na mão, encheu-a e levou-a até a grande chaleira de ferro que estava sobre a chapa do fogão de lenha perpetuamente aceso. Avivou a chama encostando mais algumas achas e voltou para o barril. Foram três viagens até encher a chaleira. Depois, quando a água já estava quente, ele tirou a pesada chaleira de cima do fogão e derramou o conteudo numa baciazinha de folha; temperou a água, lavou seus pés bem lavados e, após secá-los, caminhou nos calcanhares até a escada de madeira que levava à tulha cheia de algodão onde dormia com os outros irmãos, subiu e se ajeitou para passar a noite. Minutos depois ouviu que os pais e a irmã chegavam, e desceu para lhes contar a proeza realizada, o desafio que havia vencido sozinho, sem se queimar nem derramar nenhuma gota: um serviço bem feito, talvez o primeiro de sua vida. Cândido disse que ele era inteligente, Etelvina beijou-o no rosto e Aurora lhe deu os parabéns. Candinho dormiu bem e feliz nessa noite.
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