quinta-feira, 5 de maio de 2011

Algumas daquelas lembranças de infância que nunca se apagam...

As canas assadas

Em Santo Antonio da Platina, foram morar numa parte do próprio barracão da serraria, onde tinham sido erguidas paredes divisórias e o espaço transformado numa casa com uma sala pequena, cozinha e dois quartos com camas: um maior, do casal, e outro menor, da primogênita Aurora. De manhãzinha, depois das noites de frio, quando os meninos estendiam um lençol sobre o algodão guardado na tulha pegada à casa e se aninhavam nele meio enroscados uns nos outros e cobertos com seus cobertores, quentinhos e confortáveis, eles, ainda meio sonados, iam pegar umas canas que havia para sustento dos bois na propriedade e assavam as varas em fogueiras feitas com os cavacos e gravetos que sobravam da serraria, até que as cascas torravam e estouravam. Depois descascavam e chupavam os grandes gomos quentes e doces.

Candinho lava os pés sozinho

Uma noite, saíram Cândido, Etelvina e Aurora, e o caçula Candinho ficou só com os irmãos homens. As horas corriam e os mais velhos não retornavam. O pequeno então empurrou uma cadeira até o barril cheio de água do poço, trepou nela com a caneca na mão, encheu-a e levou-a até a grande chaleira de ferro que estava sobre a chapa do fogão de lenha perpetuamente aceso. Avivou a chama encostando mais algumas achas e voltou para o barril. Foram três viagens até encher a chaleira. Depois, quando a água já estava quente, ele tirou a pesada chaleira de cima do fogão e derramou o conteudo numa baciazinha de folha; temperou a água, lavou seus pés bem lavados e, após secá-los, caminhou nos calcanhares até a escada de madeira que levava à tulha cheia de algodão onde dormia com os outros irmãos, subiu e se ajeitou para passar a noite. Minutos depois ouviu que os pais e a irmã chegavam, e desceu para lhes contar a proeza realizada, o desafio que havia vencido sozinho, sem se queimar nem derramar nenhuma gota: um serviço bem feito, talvez o primeiro de sua vida. Cândido disse que ele era inteligente, Etelvina beijou-o no rosto e Aurora lhe deu os parabéns. Candinho dormiu bem e feliz nessa noite.

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