terça-feira, 1 de março de 2011

A Família

Hoje, mais de nove décadas depois do nascimento de Candinho, é quase impossível saber exatamente quando foi que a família chegou à região. Não restaram documentos escritos, há muito poucas fotos e Candinho, o único sobrevivente do grupo original, nasceu no Paraná e não sabe ou não tem certeza sobre muitas coisas de antes de seu nascimento. A página da prefeitura de Santo Antonio da Platina na internet registra, na pesquisa do historiador Israel Pereira de Castro, entre as famílias pioneiras chegadas no ano de 1898, uma de sobrenome Coelho (Souza Coelho ou Coelho de Souza), o que combina com a época, o local e o apelido de Candido Coelho pelo qual nosso Candido Bonifácio de Souza era conhecido por todos. Parece que teriam chegado, na mesma leva ou em períodos próximos, vários ramos da família: pais e filhos mais velhos já com suas próprias famílias, irmãos, tios e primos – às vezes netos, mas nada disto é uma certeza absoluta. De todo modo a história da família se insere numa época em que a cultura do café estava se expandindo desde o interior de São Paulo e entrando pelas terras roxas e férteis do Norte do Paraná, e a ferrovia – que até então chegava a Ourinhos, logo do outro lado da fronteira, no estado de São Paulo – ia logo chegar ali na região de Santo Antonio da Platina, lançando um ramal na direção dos Campos Gerais, no centro do estado, onde se encontraria com a estrada que subia desde os pampas gaúchos, e outro ramal para oeste, por onde embrenharia pelos sertões do Norte do Paraná civilizando a região e disseminando cidades ao longo da linha no decorrer das décadas que viriam. Candinho nasceu poucos anos antes disso começar, pouco antes da Cia. de Terras Norte do Paraná, da São Paulo – Paraná Railway, da Paraná Plantations, do projeto inglês de colonização... Ou quase que ao mesmo tempo em que isso tudo. Ele é pouca coisa mais velho que o Norte Novo do Paraná.

A família era composta por, além dos pais Candido e Etelvina, cinco irmãos: pela ordem de idade, a mais velha era Aurora, depois vinham Daniel, Valdemar, Edward (chamado Edevarde, apelidado Ides) e, finalmente, Candinho, o caçula. Dessa filharada, dois já tinham ido antes de 1918 – Heitor e José – e, um ano e pouco, dois anos depois de Candinho, ainda nasceria Eurodites, que não sobreviveria mais que uns poucos dias.

Vivia agregado a eles um ex-escravo, liberto pela lei Áurea, um bom Preto-Velho, sábio e solene: o véio Dito. Dele não se sabia com certeza a idade. Só que já era adulto em 1888, quando terminou a escravidão. Candido lembrava-se dele sempre com a mesma cara, desde que era bem novinho. Quer dizer que então, em 1918, ele já teria pelo menos sessenta anos, mas, supõe Candinho, devia ter mais de oitenta, talvez uns noventa, ou mesmo por volta dos cem, mas nisso não dá para confiar, porque Candinho era muito, muito novo mesmo, e ele se lembra da imagem do Véio de uma forma muito vaga, sabendo mais dele pelo que a família comentava, anos depois de sua morte, enquanto ele crescia, do que por uma lembrança direta. O Véio Dito era aquele tipo de ser que sempre esteve lá, como a voz do pai ou o calor da mãe, a maior parte do tempo quase invisível e silencioso como uma sombra, mas que também sabia impor sua presença como poucos conseguem. Ao que se sabe, era descendente de uma longa linhagem de escravos. Seus pais, seus avós e os pais deles antes, sempre tinham sido propriedade da família de José Coelho e dona Inácia, e dos pais dele, e dos avós... Com o advento da Lei Áurea e a abolição, familiarizados como já estavam uns com os outros e interdependentes como eram naquela dura luta pela sobrevivência, permaneceu tudo como dantes. Dito vira o nascimento do jovem patriarca Candido no final da década de 1870 ou nos primeiros anos da de 1880, testemunhou e acompanhou-o enquanto ele crescia, constituía família e gerava seus próprios filhos com Sinhá Etelvina.

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