quinta-feira, 24 de março de 2011

Daniel e as mamangavas ou veneno e ciência

Começo da tarde; o ar estava quente e havia uma profusão de ruídos, zumbidos de insetos, latidos distantes, a voz de uma mulher entoando uma moda, o canto dos pássaros. Daniel andava pelo pasto à procura dos bois da junta que iria levar a carreta até o canavial, onde uma peonada tinha passado a manhã cortando e arrumando a cana que iria abastecer o engenho no trabalho que começaria no final da tarde e se estenderia madrugada adentro. Como sempre fazia, primeiro ele encontrava um dos animais e ia tocando-o pelo pasto, que era uma capoeira alta o bastante para ocultar até mesmo um boi. Os outros iam sendo reunidos até formar um único grupo que era levado até a mangueira onde seriam atrelados às cangas e postos para puxar a carreta. Nessa tarde Daniel estava tendo trabalho com um dos bois, que tinha se enfiado no meio de um emaranhado de galhos e cipós e estava se debatendo para escapar. Num movimento mais brusco, o animal enfiou o chifre numa casa de mamangavas que, assanhadas e furiosas, atacaram em enxame. Daniel saiu correndo e gritando feito louco, com a nuvem de insetos em torno dele, picando-o implacavelmente. Parou de gritar e começou a resfolegar. Os movimentos de sua corrida desenfreada foram ficando mais lentos e desarticulados, até que ele desabou no meio do pasto. Alguns vizinhos perceberam o sucedido, mas não puderam fazer nada porque o enxame que atacava Daniel não se dispersava. Correram então a chamar Candido, que chegou poucos minutos depois e viu o filho desacordado, inchado, lábios e pontas dos dedos roxos, respirando com dificuldade, cheio de calombos por todo corpo, no centro de cada calombo um ferrão adornado com as vísceras que as mamangavas deitavam fora quando picavam um bicho de sangue quente (a justiça da natureza: a mamangava envenena o bicho, mas perde a vida, desentranhada). Candido não pensou muito: pegou o menino nos braços e correu para casa com ele. Alguém veio com uma colcha limpa retirada do baú. Embrulharam Daniel e colocaram-no na garupa da sela de Candido, que firmou bem o moleque de encontro ao seu próprio corpo e espicaçou o cavalo, saindo em desabalada carreira para Jacarezinho. Lá chegando, procurou pelo Dr. Lessa, que o atendeu de imediato. Com sua pinça, o médico retirou do menino qualquer coisa como setenta e oito ferrões, e os foi colocando dentro de um frasco de vidro. Não havia muito que fazer num caso como esse, só limpar e tratar bem a vítima, colocá-la para descansar e esperar que a natureza fizesse sua parte. Daniel delirou e teve febre; sentiu muita dor quando começou a desinchar, e ficou com as vistas embaçadas e lacrimosas por um longo tempo depois, mas curou-se completamente e sem complicações.


Uma ocasião, mais de um mês após o ocorrido, quando Candido já via Daniel quase bom na lida e na vida, de passagem por Jacarezinho foi ter com o médico em seu consultório. Este o recebeu com muita cortesia, ofereceu-lhe assento numa cadeira diante de sua escrivaninha, abriu uma gaveta e retirou dela um frasco de vidro de boca grande com uma tampa de rosca onde estavam os ferrões. Mostrou-os a Candido e comentou:

- Sabe, seu Candido, as mamangavas injetaram muito veneno no seu menino, e talvez ele tenha se salvado exatamente por isso.

- Como assim, doutor?

- Também não entendo muito bem, mas acho que, passando da dose, o veneno se transformou em outra coisa dentro do corpo de Daniel, perdendo o efeito letal.

- Essa é nova! Veneno que desvira veneno! O que mais vai aparecer?

- A ciência ainda tem muita coisa para descobrir, seu Candido: o mundo é vasto e assombroso. Não tem limites!

- O senhor veja só... – disse Candido.

Agarraram na prosa durante o restante do tempo que durou a visita. Era uma tarde tranquila e o Dr. Lessa não tinha nenhum caso naquele dia. O médico era um homem letrado, que tinha lido muitos livros e recebia regularmente jornais e revistas de São Paulo. Conversaram sobre as ciências e atualidades: o automóvel, o avião, a máquina de escrever e a luz elétrica. Candido era um caboclo rude e de poucas letras, embora fosse curioso, inteligente, perspicaz e gostasse muito de aprender. Ao médico faltavam interlocutores interessantes naquela cidadezinha na fronteira do sertão, e era sempre um prazer quando aquele camarada sério, quase sisudo e de poucas palavras vinha ter com ele. Candido deu grandes mostras de gratidão ao médico pelo bom tratamento dispensado a Daniel, e este falou de muitas coisas interessantes que tinha lido nos livros e revistas que recebia, sobre essa coisa de doses letais e reações químicas que acontecem dentro dos organismos vivos. Candido escutava aquilo tudo com uma atenção concentrada e respeitosa, comentava as coisas que o médico lhe dizia e fazia perguntas que demonstravam sua sede de conhecer, de entender, de saber mais. O rude homem de lida respeitava aquele médico de fala mansa, maneiras suaves e mãos lisas e delicadas. O médico tinha grande apreço por aquele homem de mãos calosas e maneiras desconfiadas que, às vezes, se punha a cismar e, de repente, soltava sem mais uma pérola de sabedoria simples.

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