terça-feira, 15 de março de 2011

As primeiras histórias

Candinho foi contando suas histórias do jeito que saiam e eu fui dando forma e sequência a elas, o que tem sido como montar um quebra-cabeças. O que se refere ao tempo mais antigo, quando nosso protagonista era criança pequena, e cujo resgate depende exclusivamente de seu testemunho, como as coisas sobre o Véio Dito (alguém que, ao que se sabe, nunca existiu oficialmente) e a pequena Eurodites, que talvez tenha vivido de um ano e pouco a dois anos e não apenas poucos dias como está escrito em mais de um lugar aqui nesses textos. Candinho acha que sua irmã caçula teria sobrevivido para se mudar com a família do bairro do Ubá para a cidade de Santo Antonio da Platina, mas, por outro lado, também tem quase certeza de que a pequena não chegou a completar dois anos, uma possibilidade inviabilizando a outra. Não há mais como saber com certeza o que foi mesmo que aconteceu, mas isto não é completamente relevante para nossa saga. Neste início do primeiro grande ciclo, mais que a precisão, o que importa é o sabor e o colorido das narrativas. Há menos de um século existiam ex-escravos agregados às famílias a quem tinham pertencido, e a morte de uma criança nova era coisa corriqueira. Aqueles casais tinham dez ou doze filhos para que sobrevivesse, na melhor das hipóteses, a metade desse número.

Anotações no borrador

Cândido mantinha um livro-caixa que ele chamava de borrador, onde anotava minuciosamente todos os negócios do sítio e exercitava sua letra tosca e preciosa em traços de bico de pena: cada tostão ganho, cada tostão das despesas da casa, quantos animais, qual o tamanho da área plantada com cana, com café, com milho, quanta rapadura tinha sido vendida para quem, quantas galinhas e quantos ovos, quem eram as pessoas que trabalhavam em que para que isso acontecesse... Absolutamente tudo o que dissesse respeito à movimentação de produtos, valores, seres e acontecimentos da propriedade e da família. Numa das páginas desse livro-caixa estava registrada em valores numéricos e anotações uma história que Candinho ouviu ser comentada muitas vezes ainda bem novinho: contava de uma ocasião quando Cândido tinha que entregar certa quantidade de ovos, outra de galinhas e ainda outra de café em coco para comerciantes em Jacarezinho, depois de uma jornada de dezoito a vinte quilômetros pelos rudes carreiros da região, sacolejando com toda a carga em cima do carro de boi. A grande preocupação do pai de Candinho era a segurança dos ovos e das galinhas. Habilmente ele organizou as sacas de café de modo a formarem um espaço vazio no centro da pilha, espaço este guarnecido com folhas de bananeira, onde foram aninhadas as duzentas dúzias de ovos, enquanto as trezentas galinhas foram amarradas pé com pé e dependuradas de cabeça para baixo nos fueiros do carro. Fazia calor e o caminho era longo até o destino final. Caiu na estrada e começou a chacoalhar. O dia estava firme e claro, e não houve grandes contratempos no trajeto. Demorou pouco mais de cinco horas e, ao chegar, antes mesmo do primeiro gole d’água, foi contabilizar os números da travessia: vinte galinhas sobreviventes e apenas três ovos quebrados. Durante anos a fio o caso foi lembrado e comentado, com uma espécie de atitude assombrada, mas cheia de bom humor. Candinho escutou essa história uma porção de vezes, tanto que se lembra dela como se ele mesmo a tivesse vivido, e chegou a ver as anotações que seu pai tinha feito no borrador, uma série de traços e sinais misteriosos de que ele ainda não compreendia o significado.


A semente de laranja


Aurora tinha 7 para 8 anos em 1915, e morava com os pais e irmãos no sítio do Ubá. Na tarde de certo dia, ela chupou uma laranja. Até aí nenhuma novidade. Mas aconteceu que, dois dias depois a menina começou a sentir um incômodo ligeiro numa das narinas, que foi aumentando aos poucos e se transformando numa dor forte e constante. Pouco tempo depois sua cara começou a inchar de um jeito muito esquisito, ela tentava se assoar e não conseguia, nem parava de fungar, de chorar e de se sentir cada vez mais aflita. O negócio ficou desesperador. Cândido e Etelvina, preocupados com a situação, se aviaram rapidamente para levar a menina até Jacarezinho, lá no consultório do Doutor Gustavo Lessa, que a examinou de pronto e, depois de ter conseguido acalmar a pequena, pegou uma longa pinça e a enfiou na fossa nasal de Aurora, tirando de lá pouco depois uma semente de laranja já lançando um broto verde para fora da casca. Foi um alívio indescritível, de que ainda se falaria muito tempo depois, e mais uma história que Candinho se lembra de tanto ter ouvido falarem sobre ela quando ainda era criança pequena.

Eurodites

Em 1920, quando nosso protagonista tinha 2 anos de idade, veio a nona – e, ao que saiba Candinho – última gravidez de Etelvina. Nasceu então a pequena Eurodites, a caçulinha do clã, que mal teve tempo para ser batizada. Veio ao mundo mirrada e fraquinha, e sobreviveu por poucos dias após o nascimento. Foi o Véio Dito a providenciar, numa manhã bem cedo, antes mesmo do primeiro canto dos pássaros, o enterro da menina. Sossegadamente e em silêncio, como era de seu feitio, o Véio Dito cavoucou num recanto afastado da propriedade e fez um buraco estreito e profundo onde o pequeno corpo foi deixado para o retorno à sua primeira mãe. Depois ele e os que o tinham acompanhado para aquele último adeus, rezaram para o sol da manhã.

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