Um dia, em 1923, quando Candinho estava com 5 anos, o sítio do Ubá foi vendido e eles se mudaram para Santo Antonio da Platina, onde o patriarca Cândido tinha se associado numa serraria com um certo Sr. Fernandes (de quem Candinho não sabe mais nada), que havia entrado com a maior parte do capital enquanto Cândido ficava encarregado do trabalho de localizar as árvores no meio da mata, providenciar para que fossem derrubadas, serradas no local em pedaços de tamanho adequado para o transporte, embarcadas nas carretas e transportadas até a serraria, onde a madeira era desdobrada em tábuas e outras peças – dependendo da qualidade e o fim para o qual se destinava – que seriam, posteriormente, utilizadas nas construções da região. Para realizar esse trabalho Cândido contava com, além de seu espírito empreendedor, o Véio Dito, seus carros, suas juntas de bois e alguns homens contratados que tinham que ser fortes e hábeis no uso de machados e serras.
Então, certa madrugadinha fria de meados de maio, a família acordou mais cedo que o costume, e todos tiveram que colaborar para arrumar o que ainda restava da tralha da família sobre o carro de boi. Cândido percorreu a casa mais uma vez para ver se não estavam deixando nada para trás, trancou-a, entregou a chave ao vizinho que iria cuidar até a chegada do novo morador, rodeou mais uma vez a caravana fazendo as últimas verificações, sentou-se ao lado do Véio Dito e deu a ordem de partida. Ali se iniciava a última viagem da mudança para a cidadezinha a seis quilômetros de distância.
Candinho, que com cinco anos de idade completados poucos dias antes, tinha nascido e vivido toda sua vida no Ubá, ia à frente, com a mãe e os irmãos, explorando o mundo, e a carreta carregada seguia logo atrás conduzida pelo Véio. Cândido ia atento ao andar do carro e ao equilíbrio da carga. Às vezes proseavam alegremente, às vezes falavam poucas palavras sérias, ou passavam longos minutos calados. Seguiam num passo firme e constante, mas tiveram que parar algumas vezes para ajeitar alguma amarra que tinha afrouxado num solavanco.
Era uma manhã quase fria, começo de um dia claro e bonito de sol. Daniel e Valdemar, de treze e onze anos, iam bem à frente do grupo, enquanto Etelvina e Aurora caminhavam com os mais novos. Apesar de cansativo, era quase um passeio. Entraram numa curva fechada no carreiro de terra. Por um momento estiveram dentro de uma bolha de silêncio só penetrada pelos sons do mato em volta: não viam nem ouviam os que estavam à frente nem os que vinham atrás. Ides caminhava distraído ao lado de Aurora, um pouco à frente dela, enquanto Candinho, ao lado da mãe, seguia olhando, absorto, para o mato na beira da estrada. Era um lindo recanto com sombras e luzes e verdes. De repente Etelvina parou, fez sinal de atenção e apontou com sua sombrinha para o tronco de uma árvore. Ali, paradinho a observá-los, um bicho pouco maior que uma ratazana, de pelos curtos e lisos e cauda cotó, os olhinhos redondos e o focinho trêmulo, farejando o ar. Olharam-se por um instante, os humanos e o roedor. Candinho apontou seu dedo e exclamou, rindo de orelha a orelha: - “Serelepe!”, enquanto o animalzinho desaparecia no meio das folhagens. Ides pulou e gritou de contente, e até a sisuda Aurora abriu o seu melhor sorriso. Assim a viagem prosseguiu muito mais gostosa.
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