quarta-feira, 20 de julho de 2011

Santo Antonio da Platina - parte 1

O Rio das Cinzas, entre Abatiá e Santo Antonio da Platina


Chegando a Santo Antonio da Platina

16 de junho de 2011, começo da tarde, chegamos a Santo Antonio. Horizonte amplo, sol brilhante, um daqueles dias melhores que a encomenda. É para cá que toda essa história converge. Depois das postagens imediatamente anteriores a esta, que saíram em dois tempos, como num jorro, apareceram alguns obstáculos que interromperam o movimento e, assim, fiquei umas duas semanas sem postar nada... Isto propiciou um distanciamento necessário entre os eventos ocorridos e a transformação destes em narrativa. Sem esse hiato, talvez o texto a seguir saísse uma coisa cheia de exaltação e entusiasmo e carente de substância. Aqui estamos chegando à conclusão desta crônica de viagem. Aqui a experiência vivida é definida em termos de linguagem, onde se busca narrar o que é pessoal e particular de forma que faça sentido para os possíveis leitores - e assim tenta-se traduzir o evento, a coisa acontecida, para o mundo das palavras. É bem neste ponto que tudo se torna muito delicado, porque a experiência total da viagem do Pai e do Filho em busca das origens estava (está), naquele (neste) momento, se aproximando de seu termo, e é a partir de agora que tudo se junta ou dispersa de vez.
 Antes mesmo de chegarmos, uma parada para fotografar o morro que domina a cidade e a cidade que, da entrada, se vê no sopé desse morro. Primeira parada, Posto Platina (ou "Platinão"), bem na entrada da cidade. Este posto era de propriedade do Heráclito (Kito) Ferreira Dias, filho do Cícero, padrinho de crisma de Candinho... Bem, Kito não é mais o dono do posto, mas aparece ali de vez em quando. Conseguimos uns números de telefone, o endereço da Dona Marta Ferreira Dias (agora Dal Bianco), irmã do Kito e madrinha de batismo de minha irmã, num prédio de apartamentos no centro da cidade. Encontramos o lugar, mas não a Dona Marta. Fomos dali até uma empresa de engenharia onde encontramos um dos filhos da senhora, que fez a ponte com a mãe. Marcamos de encontrá-la lá pelas 18, 18:30h. Fomos até o Hotel Baggio, reservamos nossos quartos, largamos ali as bagagens e voltamos para a rua anotar, fotografar, localizar espacialmente as memórias de Candinho.

A Lyra Platinense

Candinho sentado na mureta diante da Casa Paroquial,
enquanto eu estava andando pela praça logo ali em frente tirando fotos

A Praça da Matriz, A casa Paroquial, o coreto onde, desde aquela época, tocava a banda Lyra Platinense, ainda com a lira no topo da cobertura. Diz Candinho que nada mudou muito no coreto, na igreja ou na casa paroquial; a praça tem árvores e calçamento hoje – o que, segundo ele, não existia na época – as construções devem ter sido restauradas ou reformadas em algum momento, as ruas foram asfaltadas e a cidade se modificou em torno daquele quarteirão. Eu rabiscava esquemas, plantas toscas de quarteirões e prováveis localizações de lugares e/ou coisas que existiram e/ou aconteceram há 60, 80 anos... A doceria da Dona Rosalina França, o cinema que passou “A Padaria Encrencada”, a Praça da Cadeia. O lugar onde o sargento Jorge Bueno da Rocha tombou, atingido por um balaço no meio do coração disparado por um desconhecido...
Era quase um excesso de informação, meu pai estava mentalmente excitado e eu tentava não perder nada. Já cansados da viagem e da agitação que vinha desde a manhã, em um ou dois momentos a conversa ficou mais difícil e eu tinha que respirar fundo, discutir um ponto obscuro ou perguntar mais uma vez enquanto rabiscava esquemas dos quarteirões, fazia cruzes, anotava as referências para sair depois fotografando os lugares, tentando localizar no espaço as memórias evocadas por Candinho. Tenho certeza quase absoluta de ter furado um ou dois pontos desse mapa tosco, fotografado a esquina de cá enquanto devia ter fotografado a de lá – mas isso verei/confirmarei quando retornar a Santo Antonio da Platina.
A esquina onde Diogo Apolinário Correia ficou de tocaia esperando pelo delegado Antonio de Souza, o quarteirão do Clube Platinense e o bar na frente deste, onde Edward levou a efeito sua vendetta no carnaval de 1938.
Bloco de anotações na mão esquerda, câmera na direita e, às vezes no bolso do casaco, quando eu ia conferir uma nota ou anotar algum detalhe. Num desses movimentos de guardar a máquina no bolso e me voltar para a esquerda, meu olhar caiu direto nuns olhos grandes, bonitos, claros e expressivos de mulher, estranha e surpreendentemente familiares:... –“Edu!” – Ela gritou meu nome, nós nos abraçamos, beijamos, conversamos atropelado por alguns minutos, trocamos números de telefone, ficamos de nos encontrar mais tarde...
Era a Bia. Eu a conheci faz uns 4 anos, quando morava numa república no Jardim Hedy, Londrina. De repente, numa manhã, lá estavam Bia e Pitt, um casalzinho jovem e bonito que estava vivendo – acho que ainda está – uma história de amor cheia de paixão e aventura, além de, naquela época, uma porção de obstáculos... Não conheço muita coisa disso tudo e, mesmo que conhecesse, não vem ao caso. Entre as outras pessoas que moravam na casa, tinha a Meire, a quem conheço já por toda minha vida, nascida na mesma cidade que eu, a mesma Cornélio Procópio que havíamos visitado havia poucos dias e filha do “Seu” Maurício Lopes que, segundo Candinho, foi buscado por ele e pelo seu melhor amigo da época (e de toda a vida), o meu padrinho de crisma, Reynaldo Scheibe, em Santo Antonio da Platina, para trabalhar no escritório da Cia. Aérea Real em Cornélio Procópio. Foi graças a isso, segundo meu pai, que “seu” Maurício conheceu Dona Didi Valin (ela faleceu há pouco tempo - se não me engano, dia 5 de junho - que Deus a tenha), mãe da Meire, da Cacinha e do Mauricinho...
Talvez não seja nada além de coincidência, e não vou dizer que é ou não é – eu sei lá. Aqui é aquela categoria em que a gente pode até contar a história com sentido e sequência, mas cujo significado mais profundo extrapola os limites da linguagem... A narrativa continua na próxima postagem.

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